e tá a venda o Socos no Escuro, de Camila F.

Eu presenciei o início desse livro. Acho que muitos primeiros livros de vários autores surgem a partir de diários. Foi assim com Tanto Faz do Reinaldo Moraes, por exemplo. Camila Fraga percebeu o que podia fazer e escrevia com velocidade e qualidade surpreendente enquanto tava lá na Espanha, num lugar chamado Villa Ociosa. Ela me mandava por e-mail capítulo a capítulo quase todo dia. Havia uma espécie de sensação dúbia sempre que eu acordava de ressaca, deixava a garota com quem eu ficava dormindo na cama e ligava o computador dela pra ler mais um pedaço do Socos No Escuro. Sabe, a Camila e eu já nos curtíamos na época. E ela andava escrevendo sobre toda aquela dor e sobre todo aquele sexo e eu andava desesperado pela cidade, morando com minha ex-namorada, quebrando o pau com minha ex-namorada, bebendo uma garrafa de conhaque por dia. Então eu lia aquilo e pensava que diabo de mina que escreve bem pra caralho, mas também pensava em abraçá-la. O que é uma bosta. Você não pode ler Marcia Denser ou Anaïs Nin desejando amapará-las ou dar a elas a trepada que elas merecem. Quer dizer, você até pode, o problema é todo seu. E o problema era meu. O fato é que eu tava lendo boa literatura e a explosão de uma garota de 18 anos escrevendo como o diabo. Socos no Escuro lembra um pouco de Marcia Denser, embora acho que Camila nunca tenha lido nada dela. E lembra um pouco de Anaïs Nin e Bukowski e Lollita Pille e Sacha Sperling e até John Fante. Mas são lembranças meio nebulosas, trovoadas no caos sexual e auto-destrutivo de Sara, a personagem narradora do livro. Então era isso, eu lia esses capítulos com o prazer de quem descobre algo novo e bom e, ao mesmo tempo, com a sensação de que eu queria tá ali, então tomava um remédio pra dor de cabeça e voltava pra cama da minha garota e a gente trepava até eu levantar pro trabalho ou coisa assim. Daí Camila voltou. E acabou o livro. E a gente se encontrou uma dúzia de vezes e andamos bebendo e fazendo outras coisas mais por Porto Alegre e Salvador. Na última vez que a vi a gente ficou uns vinte dias num apartamento sem móveis e sem luz elétrica, dormindo em cima de um edredom velho e bebendo vinho, comendo uns negócios baianos, caminhando pela cidade e dando uma revisada ortográfica final nesse livro. Agora, ele tá a venda pelo site da Livraria Cultura. E logo vai tá por outros lugares e ela mesma vai tá vendendo. Eu sempre acreditei na literatura da Camila. E sempre acreditei que o livro ia ser lançado. Ela escrevia aquilo tudo e eu dizia ‘edita bem que esse negócio vai virar um puta romance bacana’ e virou. E eu escrevi o prefácio. Ta aí embaixo. Leiam e comprem –

PREFÁCIO

“O inferno de Sara

 bruno bandido

Eu sou uma debilzinha carente como o diabo. É assim que Sara se descreve em algum momento entre um porre dramático e uma trepada vazia. Socos no Escuro é o diário de bordo de uma viagem pelo inferno. E a personagem pode até seguir o clássico conselho do poeta William Carlos Williams no prefácio de O Uivo: “Senhoras, levantem a barra de suas saias. Vamos atravessar o inferno.” Mas Camila Fraga sabe que a festa sempre começa e termina com dor. E, toda noite, coloca seu alterego despedaçado pra se deitar numa cama de pregos e prazeres baratos.

Bebida barata, amizades baratas e fodas baratas no meio de uma mentalidade barata da classe-média. Ela sabe que algo muito ruim vai sair disso tudo, sabe que a fossa sempre pode chegar a um nível muito mais pesado e que o preço disso, esse sim, é caro. Mas também sabe que “não há melhor nem pior excitação do que aquela que vem junto com uma tristeza quente”. Sara é uma dessas garotas de olhos tristes que, em algum momento de suas vidas e por alguma razão filha da puta, não conseguiram aprender o valor real da beleza. E bebem por isso e abrem as pernas por isso e cortam a pele e desafinam hospitais e quebram garrafas na cabeça desses caras que nunca desapontam suas próprias babaquices – eles desfilam pelo livro. Seja em Salvador ou Madrid, Sara tem a manha de arrastar carinhas prum colchão e tirar proveito do inferno, pelo menos, no tempo em que dura uma trepada. Com sorte, ela vai conseguir duas seguidas. Com muita sorte, uma gozada, e, com uma intervenção divina, algum carinho vazio depois de tudo – só pra ficar mais fácil fingir que a dor e a promiscuidade têm algum sentido, só pra dar tempo de a angústia sair pra dar uma mijada e voltar. Porque é sempre o que fica: a angustia de uma jovem solitária que se masturba assistindo episódios de Friends.

Ah, claro, não posso esquecer das feministas. Talvez algumas desejem queimar todas essas páginas em praça pública. Tudo bem. Tenho certeza que quando chegarem em casa vão fechar os olhos e “levantar a barra das saias”. Esse é o livro de estreia da autora – foi escrito quando ela tinha dezoito anos – seus temas e talento e humor impressionam, por supuesto, mas o mais admirável é a coragem. Camila Fraga é uma das poucas escritoras que retratam plenamente a realidade do sexo feminino – ainda mais nesses tempos onde politicamente correto e Marcha das Vadias dividem holofotes e, mesmo assim, nenhum dos dois lados parece conter muita realidade natural. Você pode ter lido Nelson Rodrigues e concluído que as mulheres são capazes de morrer pelo sexo. Mas experimente isso em primeira pessoa. Experimente ler as inúmeras mortes de Sara. Experimente vê-la admitindo que por mais babaca que um cara seja, por mais que se perceba o quão egoísta ele é, por mais que esteja escrito em sua testa “eu só queria te comer”, se ele fizer como deve ser feito, vai ir e voltar novamente quando quiser – talvez, até mesmo, ultrapasse qualquer barreira de fidelidade, respeito e esse bando de bunda-molices reconfortantes.

Sara não sabe direito pra onde ir mas procura algo melhor pelo que morrer. De repente algo raro que alie boas fodas a essa segurança que vem da bunda-molice. Talvez ser como a Sara de Bob Dylan e ouvir de seu homem coisas como “Lovin’ you is the one thing I’ll never regret” (Amar você é a única coisa que eu nunca vou me arrepender).

A Sara de Camila Fraga tenta manter uma espécie de esperança incerta e se agarrar num cara que, na verdade, ela não pode agarrar. Ele tá a milhares de quilômetros de distância e, quem sabe, quando se encontrarem, seja a mesma merda de sempre. Mas por que não tentar? Pele e alma vão arder de qualquer jeito. Não existe não se queimar no inferno de Sara. Se existisse, o que não existiria ia ser esse livro.”

E o livro também recebeu ótima ‘orelha’ da escritora Adriana Brunstein:

“Depois de Eva, Sara foi a primeira mulher na bíblia a receber mais do que uma observação passageira. Sara. É esse o nome que Camila F. empresta à protagonista de Socos no Escuro. Mas o evangelho que Sara segue aqui é outro, é regido por um cristo gordo de saias que mastiga cruelmente sua devota. E pior. Ele a cerca de coadjuvantes que vão de garotinhos de merda a lésbicas violentas que têm pouco mais que a gentileza vazia de perguntar se está tudo bem. Não está tudo bem. Sara arrasta sua tristeza e melancolia pelas ruas, bares e camas da Espanha como um fantasma que suga os próprios dedos dos pés e ninguém ouve o barulho das correntes. Ela se alimenta de bebidas baratas – com alguma sorte de um pedaço de pizza e um pouco de haxixe – de espermas, do sangue de seu próprio corpo que ela dilacera com lâminas e chaves de casa, de uma esperança a milhares de quilômetros que se chama, ironicamente, Pedro. A vida a está sacaneando sem traço algum de piedade e ela vai vomitar tudo isso nos nossos pés. Ao virar a página, caro leitor, esteja certo de ter ao seu lado uma flanela úmida. Ou feche o livro e coloque uma boa música para tocar. Com o volume bem alto. Porque em suas mãos uma criança com os cabelos presos no varal está gritando.”

À venda:

Livraria da Travessa (Clique aqui)

&

Livraria Cultura (Clique aqui)

 

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9 Respostas to “e tá a venda o Socos no Escuro, de Camila F.”

  1. Camila Fraga Says:

    pô, o daher me mandou ontem um texto dessa marcia denser! nunca li mesmo. mó bonito esse texto, amor. beijo!

  2. Luciana Says:

    Vou comprar!

  3. Camila Fraga Says:

    oba! mó honra.

  4. Rodrigo Says:

    Comprarei, e já que não dá pra deixar comentários no tumblr dela, que ela sabia que sou mó seguidor anônimo dos escritos dela.

  5. Diego Moraes (@ursocongelado) Says:

    Bacana. Até que enfim a garota mais barra pesada do Pelourinho publicou seu livro. Agora é só esperar a grana dos direitos autorais e gastar com bebida, Camila. Abraço.

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