trabalhos

Tinha essa ascensorista linda no departamento do Estado onde eu trabalhava. Era uma droga de emprego, mas eu tive sorte de meu setor ser no último andar. Claro que eu acho esse negócio de ascensorista uma babaquice completa – quem não sabe apertar na droga de um botão? Como esses garçons de boteco que às vezes querem bancar alguma coisa idiota e resolvem te servir a cerveja no copo. Isso me deixa meio puto. Sempre me deixou. Mas ela era linda. E era jovem e tinha um trabalho, afinal. Às vezes puxava uns assuntos comigo quando ficávamos apenas nós dois no elevador. Perguntava se eu tinha trabalhado muito no dia anterior porque ela foi embora sem que eu passasse por ali. Eu não gostava quando ela ia embora antes. A carga horária dela ia até as sete da noite e às vezes eu ficava até as sete e meia. Eu simplesmente gostava de vê-la quando chegava e saía do trabalho. Era um ritual agradável. Na saída era sempre só nós dois no elevador e a gente reclamava dos nossos empregos ou às vezes não tínhamos o mínimo assunto, apenas ficávamos em silêncio até o térreo e não era lá tão desconfortável assim. Ela levava muitas cantadas dos velhos do governo e dos seguranças e guardas que ficavam na porta do prédio. E ela ria e corava e ficava quieta. Um dia eu tava esperando o elevador e um desses velhos do governo com terno impecável e barriga estourando nas calças comentou sobre ela. É linda essa menininha do elevador, não é? É sim, eu disse desinteressado.

Tu sabe, ela é pobre, ele continuou, parece que o pai é doente, por uns setenta reais tu consegue tirar ela do elevador e levar pra casa. Que noite, não?
Não falei nada, fiquei quieto e, infelizmente, ele entendeu isso como um convite pra continuar a conversa. Ele era um fodão naquele prédio, braço direito do Secretário de Governo, e podia entender o que quisesse. Essas novinhas, meio travadinhas na cama, oh, são uma beleza, ele disse.
Olha só, senhor, só porque eu trabalho aqui não quer dizer que eu seja igual a vocês, eu falei. Ele não esperava por essa. Ficou quieto e parecia furioso. O elevador abriu. Ela deu boa tarde. Eu devolvi. Ele não. Ele descia um andar antes do meu e, antes de sair, virou pra mim e disse, Tem razão, meu jovem, mas quem tá no lugar errado aqui não somos nós. Ele tava coberto de razão. A ascensorista me olhou quando a porta fechou. Babaca, eu disse. Ela não falou mais nada. Naquela tarde a chefe me chamou.
Bruno, o sr. Carlos falou que tu é mal educado, disse que é inadmissível trabalhares num lugar como esse. Eu ainda achava que ele tinha razão.
Tudo bem, eu disse. A chefe gostava de mim por algum motivo. Talvez porque eu não falasse com ninguém naquele lugar, não puxasse o saco de ninguém e não fosse lá tão burro e ela fosse um pouco inteligente. Eu apenas fazia o meu trabalho e ia embora esperando que a ascensorista ainda tivesse no elevador. O que aconteceu, a chefe perguntou?
Se ele não te contou o que aconteceu, não deve querer que a senhora saiba.
Não contou.
É claro que não.
Eu imagino, ela disse. Ela era mulher afinal, e era bonita, mulheres bonitas nesses ambientes precisam saber aguentar todo o tipo de coisas pra seguirem ali. Todos precisam, na  verdade – e parecem fazer isso muito bem. Só eu não sabia. Mas ela pareceu entender que algo asqueroso envolvia aquela história. Eu não ia contar mais nada.
Só vai embora hoje de tarde, o Sr. Carlos falou pra supervisão que não quer mais te ver aqui, eu vou explicar melhor o caso pra eles e tentar te segurar. Peguei minhas coisas e dei o fora pensando no quão babaca alguém podia ser. Ou eu ou ele, tanto faz. Eu nem queria mais ser segurado. Oh, ganhou uma folguinha! A ascensorista falou. É, eu disse. Saí pensando nela. Nela trepando com um cara daqueles por setenta reais. Bem, podia ser uma grande mentira, mas se não fosse, pelo menos acho que merecia mais do que isso. Com certeza ele podia pagar. A chefe conseguiu me segurar. Agradeci a ela sem muita vontade e aguentei mais um mês por ali. No último dia só eu sabia que era o último dia. Entrei no elevador, foi um dia de silêncio, no final ela disse até amanhã, eu disse até e nunca mais voltei. Não assinei porra nenhuma. Não avisei que tava me demitindo, apenas fui embora. Eles ligaram e eu disse que não ia voltar. Então passa no setor financeiro pra assinar a saída e pegar o dinheiro de uns treze dias que tu ainda tem pra receber. Tudo bem, eu disse, vou passar. Mas acontece que nunca passei. Meses depois eu tava precisando de grana e pensei em ir lá. Dizer que tinha ficado doente e por isso a demora. Mas fui deixando pra passar outro dia e até hoje tô sem receber aqueles treze dias e sem assinar seja lá que porcaria eles precisam que eu assine. Uns quatro meses depois me ligaram do setor financeiro. A gente precisa que tu assine uns papéis aqui. A gente precisa porque a coordenação nos cobra esses papéis pra adentrar no sistema. E o senhor tem dinheiro pra receber. Quando tiver uma folga, passa aqui em qualquer horário, por favor.
Tudo bem, eu disse. E segui sem passar e eu já nem sabia o porquê.

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4 Respostas to “trabalhos”

  1. Pedro Pellegrino Says:

    Gostei pra caralho!

  2. adriana godoy Says:

    Texto bom de ler, A gente se envolve e fica torcendopra bonita do elevador ou torcendo pra que essas sacangens parem um pouco,

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