luana caliente e o coração gelado

A gente ficou uns dois dias na cama até ela começar a ter uma crise de ciúmes idiota e eu resolver ir embora. Deixei meus dois livros do Mempo Giardinelli por lá. Carlitos dancing bar y Luna Caliente. O que mais Luana queria?  Caminhei pela cidade. Eu caminhava muito pela cidade. Eu só tinha esse par de Dal Pontes vermelhos um número maior do que calço e eles enchiam meus pés com bolhas. Isso já fazia mais de ano – elas estouravam e nasciam de novo. Luana achava meus tênis ridículos. Eu também. Tamara também sempre achou o mesmo. Tamara tinha um boton do The Jam que nunca usava. Eu o encontrei no banheiro de sua casa uma vez e fiquei me perguntando se ela não usava porque eu tinha dito que achava aquelas minas cults da cidade que se enchiam de botons com temas de bandas mods e Laranja Mecânica muito inexpressivas. Pois bem, quando o encontrei no banheiro, dobrei bem sua agulha e comecei a estourar bolha por bolha, eu tinha duas enormes embaixo de cada calcanhar, quando fiz buraquinhos com a agulha saiu água por elas. As bolhas que ficavam nos tampões dos dedos tinham sangue também. Deixei pegadas pela casa. Ele perguntou o que era e eu expliquei. São os teus tênis, não basta tu usar essas merdas horrorosas, tu tem que fuder teus pés. E era verdade. E ela se preocupava mesmo com isso. Quando soube que estourei as bolhas com agulhadas de um boton se conteve pra não fazer um fiasco e me explanar sobre os riscos de uma infecção. Eu lembro que num dos últimos dias que pude ver Tamara no hospital ela tirou sarro dos meus tênis e teve energia pra perguntar se ainda me machucavam. Não machucam não, eu menti, e ela riu e adormeceu por uns cinco minutos antes de acordar e olhar pros meus tênis e dar a mesma risada e fazer a mesma pergunta. São os remédios que deixam ela assim, sua irmã explicou antes de avisar que eu tinha que ir embora por causa do horário. Tudo bem, eu disse e beijei Tamara. Tudo bem o caralho. Ela tava mal. Ela era a única garota bacana que conheci nos primeiros meses em Porto Alegre. Eu não queria ir embora. Eu não queria que ela fosse embora. Saí de lá e fiquei caminhando pelo centro e tentei acreditar que ela não ia ir embora. Ela foi. E eu ainda sigo caminhando pelo centro cheio de bolhas nos pés. Quando começo a andar após um tempo parado a dor é maior, depois vai diminuindo, meus pés vão encontrando posições menos desconfortáveis lá dentro. Já faz mais de um ano. Bem mais. Eu cheguei em Porto Alegre com os Dal Pontes. Eu não conhecia ninguém e foi a época que mais caminhava pela cidade. Estudava de manhã, trabalhava de tarde e caminhava até de madrugada e bebia quando tinha dinheiro e quando não tinha voltava pro meu quartinho e lia David Goodis. Às vezes eu encontrava alguma velha bêbada pelos piores bares da Cidade Baixa. Algumas eram bonitas, outras horrorosas, mas todas devidamente tristes e acabadas. Eu sempre aceitei minha feiura e sempre me achei um fudido por não ter a mínima ideia de onde ir. Então eu sentava nesses bares, esperava uma das velhas me olhar, levantava o copo ou as sobrancelhas e era o que bastava prelas sentarem na minha mesa. Às vezes elas me perguntavam o que um garoto de 17 anos como eu via nelas. Classe, eu dizia, tu tem classe. Elas gostavam disso. Desconfiavam, por supuesto, mas gostavam. Tamara foi a primeira garota que conheci em Porto Alegre e segui ficando por um tempo. Ela não precisava perguntar o que eu via nela, apenas deixava que eu ficasse vendo – e eu nunca ia me cansar disso. Depois que ela se foi, roubei vários livros, li todos eles trancado no meu quartinho e quando me dei conta que, provavelmente, eu já tinha roubado mais de mil reais em livros e hqs voltei aos piores bares. As velhas sentavam na minha mesa e eu já nem conseguia dizer nada pra elas, ficava em silêncio, elas puxavam assunto, fumavam um cigarro, não ouviam nada e iam embora praguejando. Um dia teve uma insistente. Falou que tava com o carro do filho – bêbada demais pra dirigir – e precisava voltar pra casa antes que ele chegasse do emprego de guarda noturno. Eu já tinha dezoito, mas nunca tirei a carteira de motorista. Avisei pra ela. Ela insistiu. Eu também tô bêbado e dirijo muito mal, eu disse, se a polícia nos parar vai ser pior ainda. Tá bem, só vai de carona então, não deixa eu me dormir no volante, por favor, eu pago tua conta, a gente leva mais umas latas de cerveja e bebe quando chegar. Levantei e caminhei até o carro. Ela entrou no bar, pagou nossas contas, voltou com uma sacola cheia de latinhas e caímos fora. A casa dela era bem perto e chegamos fácil. Mandou que eu fosse pro quarto e disse que, se eu ficasse dentro dele, o filho não ia ver nada quando chegasse. Quantos anos ele tem? perguntei.
Vinte e oito, ela disse.
E ainda mora com a mãe?
Eu que moro com ele. Não me deixam mais morar sozinha. Dizem que sou louca.
Saquei, eu disse e abri uma cerveja. Ela não me parecia mais louca do que a maioria. Meus pés tavam realmente doendo e eu tirei os tênis e as meias e libertei as bolhas. Gostei dos teus tênis, ela disse. É, eles têm classe, eu falei. E a gente bebeu mais um pouco e quando escutamos o filho dela chegar fizemos silêncio e nos deitamos lado a lado e ela me beijou e tocou no meu pau por um bom tempo – teve uma boa dose de paciência e outra de determinação e ele finalmente endureceu. Foi a primeira vez que trepei depois de Tamara. Tinham uns meses ali e não foi lá muito agradável – eu preferia beber. Depois teve Luana, que estudava psicologia. Nos conhecemos e ficávamos de vez em quando. Um dia algum amigo em comum contou prela que eu tive Tamara e ela morreu. Pediu pra passar o fim de semana comigo e não saímos do quarto por todo aquele tempo. Ela trepava e queria mais. E eu dava mais o quanto ela quisesse. Não que eu seja uma máquina de sexo, mas eu tava sendo, isso também me preocupava, um ótimo desempenho sempre deve preocupar bêbados como eu – não vou explicar isso aqui, agora, mas bêbados como eu devem (ou deveriam) entender. Então, no final do Domingo, ela resolveu me perguntar por que eu nunca tinha contado nada daquilo pra ela. Se era por isso que eu tava sempre parecendo tão sozinho e triste e não querendo ajuda de ninguém, essas coisas. Não, eu sempre fui assim. E fiquei quieto. Fala alguma coisa, ela disse. Não falei. Tinha um resto de vinho numa garrafa e bebi, ela montou em cima de mim e trepamos de novo. Luana sempre teve uma bela bunda, e eu me agarrava nela como se fosse o único jeito de sobreviver.
Tu vai amar ela pra sempre, né? perguntou depois de um tempo.
Provavelmente. Ela e todas as outras que caíram fora de um jeito ou de outro.
Mas ela não pode te desapontar em nada.
Infelizmente.
É sério, nunca ninguém vai substituir ela na tua vida. Tu nunca vai dar tudo de ti pra alguém.
Aprendeu isso na tua faculdade de merda?
É sério, ela disse. Fiquei quieto novamente. Ela levantou, rodou pelo quarto, parecia uma inquietação de anfetamina, mas era só ciúmes.
É ciúmes, ela mesma disse, eu não acredito que tô com ciúmes de uma morta.
Tu é idiota, eu disse – mas, provavelmente, ela não tava sendo.
Eu sei. Mas sério, tu me ama? Tu consegue me amar de verdade?
Cala a boca.
É sério, eu preciso saber disso. Então eu calcei meus velhos Dal Ponte’s de guerra e fui embora. A hora de calçar sempre é a mais dolorida porque as bolhas são pressionadas contra os tênis e contra o dedão que alavanca o pé lá pra dentro. Caminhei pelo centro. Ele é vazio no domingo de madrugada. Subi até a Independência, o bar com sinuca tava fechado. Sempre odiei bilhar e qualquer tipo de jogo, mas gostava de sentar ali e ver as garotas jogarem. Tava tudo fechado e tava frio. Eu não fumava, mas pedi um cigarro prum senhor. O da minha boca é o último, ele disse. Fui pro meu quartinho e dormi. Às seis da manhã Luana bateu lá. Tava com os dois livros na mão. Ah, esqueci eles, eu disse como se recém tivesse me dado conta. Carlitos dancing bar y Luna Caliente. Luana Caliente, eu disse. Ainda me sentia só. Acho que ela sorriu.

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4 Respostas to “luana caliente e o coração gelado”

  1. aoliveirajunior. Says:

    Mais um genial. Parabéns!

  2. Abilio Says:

    Cara, acho que vais gostar dessa banda. Abs. http://www.youtube.com/watch?v=ueTYQQMMDLY

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