camina solo por constituición

Se quando eu andava furtivamente por Porto Alegre quase me considerava um fantasma. Em Salvador vou acabar me convencendo de que sou um. Saio de uma entrevista de emprego e vou caminhando pela orla de baixo do sol escaldante com minha velha camiseta preta do Tom Waits e minhas botinas amarguradas e meus pés cascudos. As pessoas passam com seus coopers e corridas e bicicletas e elas passam sem se dar o trabalho de esbarrar ou desviar da minha nada nobre – e tampouco bronzeada – carcaça, é como se eu tivesse uma linha própria, um risco definitivo, mal notando o mar e os vendedores e as famílias e os namorados e os velhos na praia – olhando pro chão – oitenta por cento do caminho é o chão. Caminho pra burro, saio da Barra e passo pelo Rio Vermelho e pretendo ir até a Pituba, que é onde divido apartamento com minha namorada e uma enfermeira e um estudante de direito. Quando algumas construções bloqueiam a orla, cruzo pedaços de dentro da cidade com seu trânsito nervoso onde os motoristas parecem ter acabado de descobrir a fantástica invenção da buzina -, e suas pequenas lojas e grandes ladeiras e velhos e mais velhos e mais velhos bebendo e conversando e jogando seus jogos idiotas e ouvindo rádio, e eles tão ali desde as nove da manhã de qualquer dia da semana, e também tem as mulheres e suas belas bundas enormes cansadas de subirem ladeiras – elas vão ficando pra trás e minhas pernas em jeans vão cortando todo o caminho sem grandes problemas a não ser a terrível vontade de tomar uma cerveja. E, de novo na orla, todos na praia bebem cerveja, mulatas e morenos jovens e fortes e seus pequenos filhos agarrados a um litro e meio de Pepsi-cola, terça-feira pela tarde, como diabos eles têm dinheiro pra isso, fico pensando e penso em bobagens ilegais e sigo caminhando e olhando pro chão e então cruzo o Rio Vermelho em uns trinta e cinco minutos, até onde moro são mais trinta se eu for rápido e eu vou e chego em vinte e cinco mas sei lá, o sol ainda tá forte entrando pela janela do nosso quarto, não tem uma cerveja na geladeira, a minha garota ainda tá trabalhando na fábrica de roupas, então resolvo caminhar mais e seguir pela orla até o sol cair, mas antes sento em um píer de madeira. Um alemão ainda mais alto do que eu e um quarentão de olhos puxados bebem cerveja. Escuto a conversa deles. O alemão é de Curitiba e tá há poucos dias morando por aqui. Os dois olham o mar. E você é daqui? pergunta o alemão. Sou da China, diz o outro com um sotaque nordestino-oriental. Ah, e você fala mandarin ou cantonês? Mandarin, ele responde depois de um segundo de pausa. Fico me perguntando se ele é mesmo da China ou é um péssimo mentiroso. Eu tive num lugar cheio de chineses, Boston, diz o curitibano, a Chinatown de lá é enorme. Boston, o china repete com um sorriso. Ficam quietos. Eles me olham. Eu encaro por um tempo, não tempo o suficiente pra acharem que sou louco, apenas um tempinho. Você também não parece ser daqui, intima o curitibano. Não, eu respondo e não digo mais nada. O chinês segue com seu sorriso ralo de velho ancião que sabe das coisas mas guarda tudo para si. De onde é? pergunta o alemão, nada satisfeito com minha resposta. Rio Grande do Sul, eu digo e volto a ficar quieto. Três fantasmas. Um gaúcho, um curitibano e um chinês na Bahia, sentados num píer de madeira de frente pro mar. Parecemos capangas de alguém muito brega e poderoso. O curitibano parece achar isso muito interessante e até belo, pelo que percebi. O chinês sorri seu sorriso de nada. Eu fico pensando que me meteria numa enrascada se pedisse um gole daquela cerveja. Resolvo seguir caminhando – minha camiseta suada do Tom Waits, minha cara de nenhuma emoção. Antes de começar a caminhar, estive na livraria de um shopping pra falar com o gerente. Eu queria trabalho. Perguntei pelo homem e me fizeram esperar. Um dos funcionários me viu e disse pra outro funcionário Pô, uma das poucas pessoas que conhecem Tom Waits. Cê não conhece, né? Ele é a segunda pessoa que vejo que conhece Tom Waits. Só eu e o João Pedro conhecemos. João Pedro foi o primeiro. Tom Waits é um cara muito foda. Então ele me olha com olhar de cúmplice e eu tenho que balançar a cabeça prele. Conheço várias pessoas que conhecem Tom Waits, talvez na Bahia seja diferente, ou talvez eu até que conheça uns filhos da puta com bom gosto e ele não. Minutos depois descobri que o nome do gerente era João Pedro. Ele olhou minha camiseta com aprovação. Não falou nada. Pegou meu currículo e caiu fora pruma sala. Investiguei o balaio de DVDs e derrubei uns quantos quando tentei ver o preço de Um peixe chamado Wanda. Ele voltou. Disse que tinha um emprego temporário pra agora em dezembro e que eu ia ganhar pouco e viu que meus empregos anteriores não tinham muito a ver com essa coisa de shopping center em dezembro. Você dá conta? Dou, eu disse. Ok, agora vou sair, vai pra casa, mais tarde eu ligo pra você e marco uma entrevista pra quinta-feira. – – – Vou encerrando a orla da Pituba e mirando o chão e pensando se aquele chinês e o curitibano se conheceram ali bebendo cerveja ou tiveram algum contato anterior no dia, coisa de trabalho ou sei lá. Fico pensando em que negócios um chinês de salvador e um jovem colono paranaense recém chegado na Bahia poderiam estar juntos. A maioria dos que penso são bobagens ilegais. A noite começa a aparecer, passo por construções abandonadas e depois por uma lona de circo. Olho pro mar por uns segundos. Vejo o pedaço de terra que eu ainda poderia caminhar, ele tem fim e tem um farol não muito grande lá no fim. Amanhã vou até ele. Agora tenho uns quarenta minutos de volta. Continuo mais devagar. Olhando restaurantes pelo lado de fora. Rodízios de pizza por 13,90, churrascaria, merdas japonesas, camarão a milanesa, bolinhos de peixe e bacalhau, Habibs, banquinhas infinitas de acarajé e cerveja e cerveja e cerveja. Um vento começa a soprar. O movimento de pedestres diminui consideravelmente e o de automóveis começa a congestionar e as buzinas, novamente as buzinas, soam sem piedade. Um casal passa por mim falando sobre comprar um Pitbull. Três metros depois três garotas que passam também conversam sobre o Pitbull de algum cara chamado Daniel. Qual o problema deles? Não sei. Tenho uma porção considerável dos meus próprios pra pensar. Só que tô quase em casa. As pernas reclamando, a boca seca. Vou tomar um banho e ler a Vertigo do mês passado enquanto ela não chega. Quando chegar, provavelmente vou desconsiderar tudo isso aí de cima, os fantasmas, a grande caminhada e os pitbulls. Vou beijá-la e vamos ficar um bom tempo na cama e depois vou ouvi-la falar sobre suas coisas do dia como o bom caipira que sou. Talvez nossos fantasmas incomodem um pouco menos quando a gente começa a virar um próprio fantasma. Isso é só o que posso esperar.

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5 Respostas to “camina solo por constituición”

  1. Anônimo Says:

    increible nobre bandido, sem dúvidas uma bela ótica sobre um diabo na terra de todos os santos.

  2. caio Says:

    fudido,
    fodido
    fantasma.

  3. Igor de Albuquerque Says:

    seja bem vindo à terra para onde o diabo foi chutado e fez morada. bruno, bandido velho.

  4. rick Says:

    Que vida mais miserável. Procure Jesus.

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