sem preces ou paraquedas

Tem sido assim. Quase sem grandes problemas. Ás vezes eu fico quieto, quieto demais, e ela encana que é algo com ela. Antes eu tentava explicar, mas na maioria das vezes a solidão não deixa – nem os demônios com suas verdades mentirosas. Então eu só sigo quieto. Ela chora. E sigo inadequadamente imóvel, como o filho da puta fechado que sempre vou ser. Outras vezes ela traz vinho. A gente dá um trato nele rapidamente e depois trepa. Preparamos um jantar. Nunca tem muita coisa pra comer. Ela sempre sente mais fome do que eu, prepara um miojo e eu me entretenho com algumas garfadas. Dia desses cheguei do trabalho e ela tava com um amigo gay e uma portuguesa que descolou fumo numa mãe de santo em Nordeste. Caíram fora rápido e ficamos apenas nós entre a névoa e a última cerveja. Nada muito diferente disso. Ficamos no colchão de solteiro trepando e dormindo e assistindo Sons of Anarchy. A gente é simplesmente muito bom nessas coisas. Tem que ter um tipo de amor verdadeiro pra burro pra duas pessoas difíceis se aguentarem num quarto quente e num colchão de solteiro. A gente consegue. E, pelo jeito, vai conseguir por um bom tempo porque somos dois jovens fudidos com suas respectivas tristezas, mas sem aquelas ilusões babacas de que vamos estar salvos enquanto estivermos juntos nos amando ou qualquer bosta do tipo. Elas ainda tão aqui, sem cúmplices ou paraquedas, sem porra nenhuma a não ser nossas próprias tentativas fracassadas de domá-las com precisão. Entre nós dois é só uma intimidade enorme forjada em algum tipo de loucura. Claro que a gente vai quebrar o pau. Eu comecei a beber menos inconscientemente depois que tive uma doença maluca nos rins, até porque comecei a aguentar menos, mas já tô sentindo que a diminuída no ritmo não vai durar muito tempo – daí fico pensando em bobagens e em todas as merdas que envolvem mulher e álcool – duas coisas que eu amo e que também trazem um bando de problemas, ainda mais, quando resolvo incluí-las comitantemente na mesma rotina. Foda-se. Tá tudo tranquilo. No bairro em que moro não rola circuito de carnaval e eu nem escuto tanto axé assim pelas ruas da cidade. Quando escuto, meus dons de desopilar se mostram quase eficazes. Minha radicalidade segue inabalável, mas desopilar a mente enquanto rolam porcarias não é tão difícil prum caipira solitário maluco fudido nascido e criado num interior de agroboys. Não foi diferente em nenhum lugar que vivi até hoje. E eu nunca gostei muito de nenhuma cidade;  pra ser mais específico, eu nunca gostei muito de pessoas e, por consequência, de nenhum lugar em que elas possam circular. Então, acho que um tipo como eu deve aprender a suportar tranquilamente qualquer merda de lugar ou cidade. Achar suas próprias saídas ou encontrar sua turma e comer suas garotas sem forçação de barra. Vejo muitos solitários forçando barra por aí e eles são tão chatos que isso quase justifica suas solidões. Eu nunca encontrei muitas turmas, tive amigos em todos lugares, ocasionais companheiros de bar, mas é isso, se não encontro uma turma, bebo sozinho, permaneço sozinho e já era. Ficar sozinho também é bacana. E encontrar minhas próprias fugas. É claro, deve-se ter noção de que todas as fugas são autodestrutivas, até as mais espirituais e tranquilas que possam existir por aí. A soma de tudo isso é o que salva os fudidos que sempre serão fudidos mas por alguma razão filha da puta não têm vocação pra suicida (suicidio é pura vocação), ou não podem morar sozinhos num sítio a milhas de distancia da civilização porque ficaria difícil de comprar a edição mensal de quadrinhos da Vertigo e as garrafas de conhaque. A arte de desopilar e a arte de sublimar sempre trarão seus benefícios. Como quando chego em casa e minha garota ainda não tá, então abro um encadernado de seus poemas originais e começo a ler. A gente convive tanto que tem horas que quase me esqueço do que ela é capaz. De que ela é Camila F. – aquela puta escritora novinha e bacana que encontrei pela internet e achei engraçado e triste o jeito em que ela levava os seus textos. Sigo folheando os poemas. Curtindo cada verso -“Nenhuma água é limpa o/ suficiente/ e nenhum louvor chega perto/ de alguma prece/ para que tudo aquilo passe/ e você possa voltar a ser o que era/ há doze anos atrás” – ah, como é foda isso daí.

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8 Respostas to “sem preces ou paraquedas”

  1. camila Says:

    lindo!

  2. Luciana M. Says:

    como é bom ler isso ao fim de um dia infernal.

  3. beatrizbeactrice Says:

    Bacana demais ler isso aqui!

  4. rozz Says:

    Bacana você retornar com os textos. Tava acreditando que havia dado um fim no blog. Ou isso ou um bloqueio, mas como bloqueio é coisa de fresco eu botei fé que tu ia voltar com esses textos bacanas e que devia ser só falta de tempo ou saco chei mesno.

  5. Anônimo Says:

    Não deixa o teu talento adormecer.Explora teu potencial.Teu texto esta lindo…confesso que estava com saudade do Bruno Bandido.bju

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