De ‘caçando borboletas com aspirador de pó’:

“…
PEDRO (passando a garrafa) – Então, padre, foi uma mulher?
CAIO – É…
PEDRO – O diabo em pessoa.
CAIO – Ou Deus, tanto faz. Ela apareceu e eu vi que eu tava errado sobre qualquer vocação. Eu não tinha motivo pra ficar ali. E não tinha mais emprego também. Mas foi só isso. Eu ainda tinha fé. E eu também tinha ela. Só que quando ela foi embora, aí eu parei de conversar com Deus.
PEDRO – Te tirou da batina e caiu fora.
CAIO – Nada, garoto. A gente ficou junto por nove anos. Osana, o nome dela. Tá na bíblia. Ela caiu fora porque tinha que cair. A gente brigava muito. Destruía a casa. Quer saber, era bonito pra burro quando a gente brigava.
PEDRO – Bonito?
CAIO – O pai de Osana era músico. Ensinou gaita de boca pra ela. E se você tem uma mulher que toca qualquer instrumento de sopro, pode crer que cê tem o diabo de um belo motivo pra agradecer a Deus (cutuca o ombro de Pedro). Fora de brincadeira, garoto. Quando a gente brigava era aquele quebra pau dos infernos, era como botar os demônios pra fora, sabe? Soltar da coleira. Osana gritava, Osana gritava muito, e só parava quando percebia que eu não ia perder a razão. Eram uns momentos malucos. A gente brigava todo o santo dia e todo o santo dia tinha a hora em que ela sacava que tinha conseguido me fazer largar tudo, menos a minha razão. Claro que no outro dia ela esquecia, nada anormal se tratando de algumas mulheres, e a gente simplesmente brigava de novo. Mas aquilo era a única coisa que ela não ia tirar de mim. Aí ela se trancava no banheiro e ficava lá dentro um tempão. Só que Osana não chorava como algumas mulheres. E não se entupia de comprimidos, ou marcava os pulsos, bosta nenhuma. Apenas pegava sua gaita e mandava ver. Eu sentava escorado na porta pelo lado de fora e ficava ali, de olho fechado, imaginando Osana sentada no vaso, linda, tocando aquele puta solo de blues.

CAIO coloca as mãos na boca em formato de concha e solfeja um solo triste de blues – a luz cai, o solo segue mesmo com a entrada de Dj Sallinger.

DJ SALLINGER – Voltamos ao vivo e talvez esta seja uma noite ideal para acabar com tudo./ É, camaradas, talvez a vida seja mesmo uma merda./ Mas não esqueçam que ela tem seus buracos./ Talvez a tranquilidade devesse ser um dos dez mandamentos./ Talvez ela devesse ser o único mandamento a ser respeitado./ Simplificar as encrencas, como a criança que cansou de usar a rede, ligou o aspirador de pó na extensão da tomada e foi ao quintal sugar borboletas./ Eu recebi duas ligações de despedida essa noite aqui no estúdio./ Dois ouvintes desolados de almas carentes anunciando que iam se matar./ Pro inferno, eu não sou um herói./ Eu sou Dj Sallinger e não posso fazer nada a não ser oferecer uma canção a vocês, suicidas, antes de anunciar nossos patrocinadores.//

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