E deus criou primeiro a estupidez, depois o inferno

As trevas. Talvez eu já tenha andado por elas – sem nenhuma provação, diga-se de passagem. Apenas a nova obrigação de ter um inferno todo pra alimentar. Alguns amigos que já pescaram minhas larvas pelos textos que escrevo, ou que me conhecem mais do que eu gostaria que alguém me conhecesse, acham que é por isso que eu escrevo todas essas merdas. E que é por isso que nunca tenho muita emoção em fazer qualquer coisa ou me dirigir pra qualquer lugar. Bosta nenhuma. Eu nunca soube pra onde ir. Isso foi o princípio. As tragédias que vieram depois são apenas o velho mundo girando desdenhoso como sempre.

Já tive duas vezes uma arma apontada na cabeça. Na primeira, eu achei até o fim que o cara ia atirar. E ele, de fato, atirou. Na segunda, isso apenas passou pela minha cabeça como uma hipótese distante. Nas duas senti praticamente a mesma coisa – primeiro fiquei de saco cheio e depois bateu aquela angústia que sempre sinto quando consigo controlar minha raiva. Eu já me acostumei coessa angústia. Eu tenho que controlar minha raiva semanalmente e tô cada vez melhor nisso. É uma angústia quase leve. Antigamente era libertador deixá-la se esvair aos poucos até virar quase nada depois que eu explodisse ou socasse qualquer coisa. Hoje em dia ela é só mais um demônio a ser domado.  Eu tava visitando meus pais na cidade em que nasci e uns delinquentes entraram na casa. Quando saí do quarto meu pai já tinha uma arma na cabeça. Minha mãe tava saindo do banho, tinha ouvido algo e se trancado no banheiro. Um deles arrombou a porta com um chute enquanto o outro me mandava sentar apontando a arma. Foi aí que eu senti alguma emoção. Levantei num  pulo e ia partir pra cima do cara porque pensei que iam estuprar minha mãe. Ela estava nua lá dentro, caralho. Ele colou o cano na minha testa e disse preu ficar quieto, eles não iam fazer nada disso, só queriam roubar. Olhei nos olhos do filho da puta e consegui acreditar nele, então, me acalmei e fiquei ali sentado, a arma apontada pra mim o tempo todo enquanto eles limpavam a casa. Quase tranquilo. Essa foi a segunda vez.

Na primeira eu tinha bebido várias doses em um bar uruguaio. Encontrei uma castelhana chamada Elisa e ela também bebeu várias doses comigo. Não lembro direito, a gente tava xingando alguém – ou os fregueses, ou o garçom ou o cara que tava escolhendo cumbias na jukebox. Merda de bêbados. Outros bêbados vieram brigar com a gente e eles ainda eram mais chatos que nós. Amo a bebida. Mas não gosto muito de bêbados. Fomos todos expulsos. Elisa me mandou entrar no carro e dirigiu devagar até sua casa. Colocou uma coletânea do Doobie Brothers pra tocar e ficamos nos beijando no sofá. Um cara entrou na casa, deu boa noite e seguiu rumo ao quarto, parecia um pouco transtornado. Elisa disse que aquele era o boludo do seu irmão e seguiu me demonstrando suas virtudes no sofá. Umas duas músicas depois o filho da puta apareceu na sala com um revólver e gritando coisas inteligíveis. Elisa se levantou e gritou também. Ele virou a mão nela e ela caiu de volta pro sofá. Levantei e empurrei o cara. Ele colocou a arma na minha cabeça e falou alguma coisa sobre não ter medo de me matar. Ele tava nitidamente cheirado. Não tenho nada contra a cocaína. Mas não gosto muito de cocainômanos. Eu gritei algo como Atira então, castelhano filho da puta. Era minha raiva. Era aquela angústia indo embora. Ele empurrou ainda mais o cano contra mim. Olhei nos olhos dele e acreditei plenamente na fatalidade inevitável do gatilho ser puxado. Não senti muita coisa. Nem muito medo nem muita vontade de morrer, então dei um tapa no braço do cara e ele atirou – a bala ricocheteou por uns cantos da casa, caiu gesso do teto, da parede ou sei lá, mas não acertou ninguém. Elisa avançou em cima dele, que começou a chorar enquanto levava uns tapas da irmã histérica. Vi que tava tudo calmo agora, meu porre tinha passado – ficou apenas um zumbido acoplado nos meus tímpanos logo depois do estrondo e os Doobie Brothers cantando “Oh oh oh Listen to the music” no fundo. Fui embora dali. No outro dia, eu tava de novo no mesmo bar bebendo com uns amigos, prestes a ser expulso novamente, e Elisa apareceu. Parecia bem – com exceção da marca do tapa. Eu não queria muita conversa, mas ela veio pedir desculpas pelo irmão. Tudo bem, eu disse. Então ela abriu um zíper da bolsa e tirou a bala do revólver. Ela tava amassada – bem menor do que elas são quando intactas e virgens – e coberta com um pouco de gesso ou tinta da parede, não sei muito bem. Encontrei no meio da sala, Elisa disse, achei que você ia gostar. Ela era maluca. Mas confesso que gostei um pouco e até hoje a carrego na minha carteira.

Também teve outra vez, ainda anterior a essa, em que disparei acidentalmente o 38 de meu pai dentro de casa. A bala fez um pequeno rombo no teto, bateu na parede e, depois, também a encontrei no outro lado do quarto. Segundos antes o cano tava virado pra mim. Imagino se eu tivesse me matado sem querer. Acho que ninguém duvidaria do provável suicídio. Mas o que eu queria com isso tudo era apenas usar esses flertes com canos de armas como exemplo de que não foram as trevas que me tornaram esse estúpido que sou. Na primeira vez, eu ainda nem tinha passado por grandes problemas  e derrotas, eu tinha uns dezessete ou dezoito anos, foi na vez em que eu não consegui conter minha raiva, foi na vez em que pensei mesmo que o cara ia atirar, foi na vez em que ele atirou. O mundo desdenhoso não havia me mostrado boa parte do inferno que ele pode ser. Saí tranquilo de lá. Eu era só um garoto fudido imaturo solitário sem muita emoção e sem saber pra onde ir. Depois disso passei por um monte merda, cometi muitas merdas e ainda levei uns nocautes da morte – que levou uma jovem garota que eu amava,  meu melhor amigo e o único familiar com quem eu conseguia conversar por mais de meia hora – fiz inúmeras cagadas e mostrei o pior de mim pra pessoas que amo e que não mereciam que eu fosse um pedaço de merda, mas, por mais que eu possa me arrepender ou tenha me corrigido em algumas coisas, segui sendo exatamente isso, um garoto fudido imaturo solitário sem muita emoção e sem saber pra onde ir. Como disse Edward Bunker, “dentro de certas arestas, ninguém consegue mudar”.

Talvez eu escreva porque tenha mesmo um belo de um inferno nas costas. Tem gente que acha que isso é necessário pra escrever. Foi a Adriana Brunstein que escreveu que se você é escritor e não tem um inferno, é melhor criar um. Ou algo parecido com isso, né Adriana? Mas o fato é que a intensidade disso não vai me fazer escrever melhor. Talvez me faça beber mais. Com certeza me fez entrar em brigas desnecessárias, socar cimento, trepar umas mulheres malucas e enfiar a cara na garrafa e nos postes e nas pernas e no asfalto, só pra não ter que chorar escondido no banheiro porque não consigo mais lembrar a voz da garota que perdi ou qualquer coisa do tipo. Acontece que nada justifica o que eu sou ou as merdas que escrevo. Não acredito em análises do tipo. Acredito em seguir me arrastando por aí, sem muita emoção, mas me arrastando. Pra quem nunca soube pra onde ir eu até que tenho ido bastante. Saí de uma cidadezinha no canto do sul do sul do país e hoje tô morando na porra da Bahia com uma bela de uma mulher, que agora dorme tranquila ao meu lado no colchão, enquanto escrevo sentado com o notebook no colo. Bobagem típica de quem ainda não sabe nada. Horas atrás a gente teve um belo de um momento, se é que vocês me entendem. Depois bebemos uma água, nos limpamos um pouco e ela dormiu – ao invés de fazer o mesmo, comecei a bater nesse maldito teclado. Estupidamente convicto.

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2 Respostas to “E deus criou primeiro a estupidez, depois o inferno”

  1. Rodrigo Says:

    Não existe desculpa ou justificativa pras coisas que gente como você faz, ou que eu faço. A gente apenas faz, e já que quem se fode é quase sempre somos nós mesmos, foda-se. Mais um texto absolutamente foda teu.

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