Da dificuldade de ser cão

“Os homens se comportam como os animais tanto nos livros como na vida. Com um
pouco mais ou um pouco menos de sinceridade, inteligência, amor, desprezo,
indiferença. Ao se editar uma modesta revista literária inevitavelmente ela
se transforma em uma lista de premiações, a distribuir notas altas e baixa.
Eu daria de boa vontade um rotundo zero a Borges, que não via a menor
diferença entre um cachorro e outro, e confundia todas as espécies. Muitos
escritores são narcisistas demais para algum dia ter se incomodado com um
animal. Não gostando de gato nem de cachorro, eles não os conhecem a não ser
de segunda mão, por assim dizer.
Jacques Brenner, que, como são Roque, está sempre acompanhado por um
cachorro, redigiu um Discurso em Favor dos Cachorros absolutamente radical
em uma coleção chamada Idée Fixe. Brenner, que em muitas obras se mostrou um
bom historiador da literatura, revisa seus julgamentos à luz de um único
critério: a atitude em relação ao reino animal. O inimigo número um é
Descartes, claro, devido à sua teoria dos animais-máquina. E já que
Descartes acreditava que nossa alma é imortal, Brenner acredita que ele viva
hoje sob a aparência de um cão esperto, em um circo. O que, por sua vez,
tenha se tornado simpático para ele.
Ele louva o autor de As Bodas de Fígaro, que mandou gravar na coleira de sua
cadela: “Eu me chamo mademoiselle Follette, monsieur de Beaumarchais me
pertence.” E Lamartine, não porque tenha cantado Elvira, mas porque sua
mulher suspirava: “Ele só ama os seus cachorros.”
No quadro de honra, Gide: quando ele “quis justificar suas maneiras, evocou
menos Platão, Shakespeare e Michelangelo que os cães e os patos”. E também
Giono, que escreveu que a responsabilidade moral do assassino é do mesmo
tipo, quer tenha matado um homem ou um animal. Bernard Shaw, vegetariano, é
um príncipe do espírito. Marguerite Yourcenar é digna de elogios. Eu não
diria o contrário. No meu exemplar de Denário do Sonho, ela se desculpa em
sua dedicatória: “Ontem eu não pensei senão no seu belo cachorro.”
(Roger Granier no seu belo livro “Da dificuldade de ser cão”. )
Nas fotos meus cães vagabundos, Chet Baker e Nina Simone. E a capa do Livro.

Jpeg Jpeg da dificuldade

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Uma resposta to “Da dificuldade de ser cão”

  1. quem gosta de enimais e mais feliz Says:

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