santidade

Olhar a grama amarela me deixa contente, ela dizia. Ela tava internada junto com aqueles junkies e maluquinhos em geral. Tinha esse grande jardim mal cuidado – escolhiam sempre alguns dos loucos habitués pra cuidar dele e, um dos designados, sempre pegava o regador e ficava despejando água no mesmo lugar. Quando a água acabava, ele gritava GASOLINA!  pruma menina que parecia não ter problema algum, mas que provavelmente tinha todos os problemas do mundo, e ela vinha correndo e enchia o regador e o devolvia sorridente pra que o maluco voltasse a despejar toda aquela água no mesmo lugar. A brincadeira durava uns trinta minutos, então ele limpava o suor da testa e dizia Pra mim deu por hoje. e voltava pra dentro do casarão. Algumas vezes, depois de me despedir de Renata, ele e eu nos cruzávamos pelos corredores. Eu ficava com vontade de perguntar se ele queria ser ator de cinema, sei lá por que diabos, se eu pudesse fazer alguma pergunta a ele seria essa. Na verdade eu podia. Apenas não fiz. Nas primeiras visitas eu ria de todo aquele mise em scène da jardinagem e Renata só seguia olhando pra grama seca, aliviada. Com o tempo fui parando de prestar atenção no local e me concentrando nela. Ela parecia cada vez mais longe, mais louca. Tu tá te transformando numa bela de uma santa, eu dizia, e ela ria e fazia força pra não mostrar o sorriso com os lábios e fingia que não prestava atenção.  Depois de uns meses, o maluco do regador sumiu. Colocaram um viciado que parecia mesmo querer se reabilitar. Ele podava os arbustos e deu um jeito de verdade na irrigação daquela grama. Ficou verdinha, eu disse. Pois é, ela disse. O que aconteceu com o cara do regador? eu perguntei. Quem? ela perguntou e eu deixei pra lá.
Renata tinha uma filha que também era filha do meu melhor amigo, o Pedro. Mas por algum motivo ele se distanciou de tudo aquilo. Depois disso, eu já tinha dado uns beijos em Renata e colocado a mão algumas vezes dentro de suas calcinhas. Nada além disso. A menininha tava sempre na sala assistindo tv e às vezes nos chamava pra contar qualquer coisa. Ela era um barato e parecia muito esperta, como toda criança subestimada. Quando Renata pegava no sono por causa dos remédios, nós dois íamos caminhar pelo bairro e tomar um sorvete. Eu fingia que podia ser tudo aquilo e ela fingia que conseguia entender. Na época dessa primeira internação, a menina ficou com a vó e eu a visitei algumas vezes, mas a velha não ia coa minha cara. Ela dizia que eu ajudei em toda destruição, que nossa turma toda devia tá trancafiada lá com Renata e que, igual ao Pedro, uma hora eu ia sumir – nisto ela tava certa.
O Pedro morreu um tempo depois. Renata tava na segunda internação dela e eu e minha namorada na época fomos lá dar a notícia. Ela chorou calada e foi uma das coisas mais tristes que eu já vi. Olhei pra grama e ela tava ali, verde pra caralho. 
Minha garota estudava psicologia e conhecia alguns funcionários do lugar e nos deixaram ficar até mais tarde com ela. A gente tava bem abalado. A gente ficou lá até de noite e chamaram Renata pra tomar banho e remédios e jantar. Tinha uns pacientes jogando banco imobiliário na sala de convivência e a menina que  era encarregada de encher a água do regador tava lá, procurei pelo maluquinho e nada. O ex-usuário que começou a cuidar o jardim também não. Nunca mais vi nenhum dos dois. A menina eu ainda vi na última vez que visitei Renata uns dois anos depois. Sua quarta ou quinta internação – logo depois, ela saiu de lá e foi morar na praia com a mãe e a filha. Nesse dia, caminhei até a menina e perguntei se ela lembrava do cara que regava o jardim. Quem? ela disse e foi só essa a pergunta que eu fiz. Ela parecia bem mais velha do que naquela época. Envelheceu muito mais rápido do que Renata, por exemplo. Ela era feia e magra demais, mas ainda assim não parecia ter problema algum.
Peguei o ônibus pra Porto Alegre e fiquei pensando no Pedro. Na filha dele e na crueldade, que nem é crueldade, do mundo. O Pedro curtia escutar uns sons jamaicanos e fumar maconha dentro do seu Corcel. Um clichê besta. Foi assim seu primeiro encontro com Renata. Foi assim o meu primeiro encontro com Renata. Eu, minha mina e eles dois dentro do Corcel, bebendo vinho a madrugada toda, andando pelas ruas mais vazias da cidade, Pedro falando sem parar e a gente só rindo ou assoprando fumaça, fazia frio e a gente se sentia os reis da nossa própria conturbação. Foi sobre isso que falamos um dia no jardim mal cuidado – ela disse que sentia falta dele e que nós dois nos parecíamos, ela disse que um dia eu ia entender uma porção de coisas, eu falei que já entendia, Tu não parece entender, ela disse – e ela tinha razão, ela era lúcida demais praquilo tudo, ela já era uma santa.

8 Respostas to “santidade”

  1. Kleber Felix Says:

    Bonito pra caralho isso, man

  2. Ernane Says:

    Excelente. Doído.

  3. Diego Pitú. Says:

    Pô, Bruno. Essas mulheres decadentes e tristes ainda enlouquecerão alguma pobre alma desguarnecida. Bicho, passa um email pra mim, gostaria de trocar umas idéias contigo. O meu é: diego-pitu@hotmail.com

  4. Diego Pitú. Says:

    te mandei um email lá, Bruno. Dá uma conferida!

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