3º dia de carnaval na Bahia

Três caras vestidos de preto, camisas de rock, bebendo vitaminas às dez da noite de um sábado de Carnaval num lugar chamado Suco 24h. A contracultura careta. Na ruazinha onde a gente mora, tem um tipo de uns cento e oitenta kilos que é nosso vizinho. Ele tá sempre sem camisa e com shorts praianos sentado em frente a sua casa. Ele arma uma mesinha de bar em frente a sua casa e apenas bebe por ali. Às vezes acompanhado de vizinhos e amigos, às vezes sozinho.  Ontem ele tava sozinho. Eu e Little Cum presenciamos o seu melhor momento há uns meses atrás. Nós estávamos voltando bêbados pra casa, ele também tava bêbado no seu local de sempre, tava rodeado de amigos, todos riam, mas dessa vez ele tinha uma arma de choque. Ele apertava o botão, fazia aquele barulhinho e ria pra caralho. Então ele pegava a arma e colocava nele mesmo, na sua barriga, levava um puta choque e apenas tremia um pouco e desapertava o botão rindo pra caralho. Todos riam muito, na verdade. É claro que foi uma cena engraçada e como quase todas as cenas engraçadas foi um bocado triste também. Amadores podiam ver um homem feliz e divertido naquela calçada com sua garrafa de cerveja e arma de choque, mas eu via um homem triste. Ainda mais triste do que ontem, quando ele bebia sozinho fitando o nada. Eu ria da cena, mas ficava com aquela sensação estranha logo depois. E quando eu passo por ele e me lembro do momento, isso também me vem como um momento engraçado, e a sensação, de novo, logo depois. Mas é bobagem. Tem um momento em que fudidos solitários como eu percebem que na verdade todos são solitários e tristes, esse momento acontece uma hora ou outra para os fudidos, eu tinha uns dezesseis anos quando aconteceu comigo, e aí eu fico reparando nessas bobagens. Só isso. Acontece que o cara se diverte com essas coisas e isso deve ser muito mais bacana do que não se divertir com nada, como eu, por exemplo. Hoje acordei meio cedo e saí lá pra fora, os cachorros ficaram cheirando tudo e mijando e o cara gordo tava caminhando em volta do canteiro. Ele dá umas trinta ou quarenta voltas no canteiro, como exercício. Já o vi fazer isso algumas vezes. Na real, acho até que ele já emagreceu um pouco, mas ele sabe que tem que seguir bebendo. Talvez ele fique mesmo magro daqui há um ano ou dois se continuar assim, e vai seguir bebendo todo dia na frente da sua casa. Se divertindo com uma arma de choque e fitando o nada sozinho num sábado de carnaval, pelo menos é isso que eu espero dele, mas vai saber.

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