Sobre a vida

Letícia apareceu lá em casa três meses depois da última vez. Havia roubado um bebê. Não sei como nem o porquê, ela apenas tava ali, linda como sempre, um pouco mais agitada que o de costume e com aquele menininho no colo cheio de roupas de lã. Tinha alguém dentro do carro esperando por eles, um homem, eu pensava, estava quase certo disso. Ela pediu alguns contatos meus do Uruguai. Dei a ela e discorri sobre uma ótima estrada vazia que a levaria da fronteira até as bandas de Punta Del Este em menos de quatro horas. Por que tu fez isso? perguntei. Ela não respondeu. Tu não vai vender o guri pro mercado negro, né? Porra, Bandido, claro que não. O suposto cara buzinou lá de fora. Ela me deu a criança preu segurar, correu até a janela e gritou Já tô indo, porra. Calma aí! e então disse que tinha que usar o banheiro. O bebê começou a chorar. Eu fiquei meio embalando ele, meio dizendo shhh shhh, amigão, enquanto a ouvia vomitar. Ela voltou suando. Acho que ele se cagou, eu disse. Ela correu pra calçada e voltou com uma bolsa do carro, pegou o bebê do meu colo e o deitou na mesa da cozinha. Pediu preu abrir a bolsa e lhe alcançar umas fraldas. Havia uma porção de brinquedos na bolsa também. Minha namorada chegou em casa naquele momento – pra variar, não parecia drogada. Oi, amor, essa é a Letícia e esse é o filhinho dela, eu disse. Letícia tava toda atrapalhada e minha namorada foi ajudá-la a limpar o moleque. É menina, Bruno, ela disse. Olhei pra mesa e não havia nenhum pinto ali. Olhei pra Letícia e ela apenas balançou os ombros. Não sei como minha namorada tinha tanta técnica naquilo mas em alguns segundos o bebê estava limpo e confortável em suas roupas. Letícia lhe agradeceu, me deu um beijo no rosto e foi embora – o cara lá dentro do carro não parava de buzinar. Minha namorada não sabia de onde aquela mulher e sua filha tinham saído, mas não fez nenhuma pergunta, sentei à mesa confuso enquanto ela começava a nos preparar um café. Nós éramos cúmplices de algumas coisa agora e, na verdade, não parecia ter muita importância. Ela sentou ao meu lado enquanto esperava a água ferver. O mala da buzina é marido dela? perguntou. Sim, eu disse. Puta mal educado, ela disse. Não tomou nada hoje? perguntei. Nada, ela disse. Que milagre? perguntei meio de saco cheio daquilo tudo e ela sorriu, Que fofo aquele neném, a gente devia ter um.

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