sobre a tristeza

eu tava escorado num carro, esperando o ritual da minha cadela de cagar no canteiro. dois caras tavam tentando colocar uma cama atrás de uma camionete, outro tava descendo do prédio com uns armários e pedaços de madeira. a mulher que tava com eles, a dona dos móveis, ficava meio avoada na volta. uma hora, enquanto todos tentavam espremer a cama na carroceria e ela os observava, virou pro outro lado e começou a chorar, sua face encolheu toda, fez uma puta cara de dor, então ela me viu no outro lado da rua, ficou meio envergonhada e virou de volta pros carregadores sem expressão de choro alguma. tinha uma menina na porta do prédio, apenas olhando tudo. uma hora ela tentou acender um cigarro só que tava ventando muito e ela não conseguiu. eu li em um poema uma vez, algum poema pela internet, talvez seja do Lawrence Ferllinghetti, talvez do Sergio Mello, não sei, só sei que dizia “não há nada mais triste do que alguém desistir de fumar um cigarro por causa do vento” ou algo assim. muito bonito. fiquei pensando nisso. a mulher às vezes não conseguia conter a tristeza e chorava de novo, sempre rápido, algum contorcimento facial e voltava à mudança com os olhos mais marejados. caramba, que tristeza foi ver aquilo. que tristeza foi ser percebido pela mulher. por que diabos eu seguia olhando? eram oito da manhã e o meu dia estava acabado.

2 Respostas to “sobre a tristeza”

  1. Ernane Catroli Says:

    Flagrante de poesia pura. Aguardo o seu livro, Bruno. Avise.

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