sobre a vida #2

Um circo do Paraná montou a lona num terreno perto de onde eu morava. Virei amigo de um dos caras do Globo da Morte viciado em AC/DC, o Motoca, e me apaixonei, em questão de segundos, por uma malabarista de 25 anos. Ela sabia que eu me amarrava nela e me provocava de todos os jeitos. Um dia, eu e o Motoca tomamos um porre e implorei pra que ele me deixasse entrar no acampamento do circo. Ele entrou e foi direto à sua barraca. O Motoca dormia numa barraca, a maioria dos outros dormia dentro de camionetes, caminhões ou trailers, ele curtia a sua própria barraca e lia livros espíritas dentro dela, com uma lanterna. Dormi sentado na frente do trailer onde a malabarista dormia. Um dos caras do circo me acordou de manhã cedo, mandou eu ir embora, eu falei que tava esperando a malabarista sair, o cara bateu na porta inconformado e a mãe dela abriu, me olhou com reprovação e fechou a porta novamente. Eu tava indo embora e a malabarista saiu. Estava com uma camisola, as pernas grossas de fora e uma puta cara de sono. Não consegui falar nada de mais e ela só disse algo como Vai pra casa cuidar dessa ressaca. De noite, eu esperava a apresentação acabar do lado de fora, bebendo Dreher e conversando com o manobrista, que não era do circo, apenas um guardador de carros local. Depois do Globo da Morte, o Motoca me chamava pros bastidores e a gente ficava conversando. Naquele dia a mãe da malabarista veio falar comigo. Perguntou se eu queria seguir com o circo e que, se não quisesse, era melhor eu dar o fora. Pra surpresa dela eu disse que queria. Estava pronto pra cair fora da cidade sem contar pra ninguém. Ela não esperava por isso e deu às costas. No dia de desmontar a lona e arrumar as coisas, fui lá cedo para ajudá-los – e eu tava com a mochila pronta. Motoca veio falar comigo, dizendo que eu não podia ir com eles. Faltam três meses pra eu fazer dezoito, eu disse, Não tem problema, cara. Aí ele falou que a mãe da menina não deixou que me aceitassem. Pedi pra falar com um dos manda chuvas, Motoca não queria isso, com certeza o colocaria em problemas mais tarde, mas, por pena ou por amizade, eu sei lá, ele chamou o homem. Motoca era um grande cara. Com certeza uma espécie de santo. O manda chuva não era o que eu esperava de um capataz de circo. Eu esperava algo como o anão de Twin Peaks, ou um velho mágico cego, como em Carnivàle. Esperava alguma espécie de misticismo e de magia, mas na verdade o manda chuva lembrava o meu pai. Um homem alto, um pouco acima do peso, potencial galã no passado, cabelos crespos e curtos, calças jeans e camisa polo suada. Um bom empreendedor. Ele não quis conversa, disse pra eu ir embora (até nisso parecia o meu pai). Eu disse que eu ia embora com o circo e tava disposto a fazer qualquer tipo de trabalho sujo, ele pareceu gostar de mim, mas apenas não podia. Mandou o Motoca me tirar dali. Motoca pediu pra que eu saísse com toda a gentileza do mundo e eu o empurrei – agi feito um idiota com ele. Motoca me pediu desculpas e então me deu um soco. Vai embora, gaúcho, ele disse. Limpei meu nariz e minhas calças e voltei pro apartamento da minha namorada.

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