lembranças

Eu com botas azuis de borracha dando milho pras galinhas. Meu pai tinha uma moto e eu colocava o seu grande capacete vermelho e ficava tonto com todo aquele peso. Um vizinho mais novo que me ensinava palavrões. Uma vizinha velha e maluca que alimentava centenas de pombos no seu quintal – e eles cagavam nas roupas estendidas do nosso varal e ela não deixava eu passar de bicicleta na sua calçada. O dia em que dei uma ideia de nome pra minha mãe batizar o meu irmão, que se chama Miguel, e ela aceitou. Comandos em ação. Meu irmão com três anos de idade e com um braço quebrado, usando o gesso pra bater em mim enquanto eu dormia.  Um sonho que tive onde uma visita recorrente da nossa casa raptava o Miguel e, no fim, a polícia a capturava mas mesmo assim ela não era presa e continuava amiga e trabalhando com minha família. O sonho acabava com eu indo dormir tranquilo com meu irmão a salvo, mas ainda com medo da mulher. Acordei e a moça tava lá em casa logo cedo da manhã. Fiquei com medo e pensei se tinha sido um sonho ou apenas o que aconteceu no dia anterior. Na verdade, até hoje, mesmo sabendo que foi um sonho, eu não tenho completa certeza, é engraçado. Duas irmãs gêmeas idênticas no jardim de infância, tinham pele branca e vestidos brancos iguais, pareciam fantasmas, sentia algo por elas, talvez atração, um dia fui conversar, elas brincavam no balanço, falaram coisas de criança pra mim, não lembro o quê, mas eu não soube o que fazer, eu sentia algo por elas, só não sabia o que era e então empurrei uma das duas, que caiu de bunda na areia e me olhou sem reação. A outra chorou e a professora me tirou dali. Fui pra outra escola infantil, eu era o maior da turma e todos podiam tentar me empurrar ou bater em mim, mas se eu fizesse isso neles era tachado como covarde e a professora me castigava. Um dia um garoto me bateu com uma pá, o empurrei e ele bateu a cabeça no chão. Uma professora veio e mandou que eu a seguisse enquanto outra socorria o menino. Expliquei que ele tinha começado, ela não queria saber, ia me levar pra falar com a diretora. Enquanto ela me levava pra lá, meu campo visual dava direto na bunda dela. Era um bundão justo em uma calça jeans, senti um misto de raiva e alguma outra sensação e lhe dei um tapa na bunda. Ela disse que se eu fizesse de novo eu ia pra salinha do pensador, uma sala escura em que a gente ficava pensando quando fazia coisa errada. Ela se virou e eu dei outro tapa. Então ela me levou lá e disse que a diretora ia me ver depois. A diretora demorou muito. Acho que tava na rua. No outro dia não voltei. Nunca expliquei os motivos pros meus pais, apenas me recusei com todas as forças. Eu caminhando sozinho durante o recreio nas primeiras semanas de colégio, sem conhecer ninguém. Minha mãe me dando uma surra porque tirei nove ao invés de dez numa prova de matemática da quarta série. Por pura falta de atenção, ela disse. Você tem que ser o melhor, ela disse. Eu fui o melhor, por muito pouco tempo. Eu de saco cheio numa reunião dançante, querendo dançar com as menininhas sem nunca ter dançado, sem nunca ter falado direito com uma menininha, sentado num canto, olhando todos os outros da minha turma curtirem. Aprendendo a tocar violão num velho Tonante que foi da minha avó. Ela também tocava acordeom. Tocando baixo em uma porção de bandas covers horrorosas com 14 anos. Alguns dos outros tinham 30. É o que acontece numa cidade pequena. Achando minha turma. Bebendo muito. Escutando Like A Rolling Stone pela primeira vez. Lendo Garth Ennis pela primera vez. Lendo A Metamorfose. Depois Sallinger e Kerouac. Lendo todos os caras que o Cazuza conheceu no lado escuro da vida. Crônicas de um amor louco entre os livros de psicologia do meu primo em Porto Alegre. Fazendo músicas próprias imbecis de vanguarda e me achando um grande artista no teatro da cidade. Tendo vergonha delas com um puta atraso de dois meses depois. Derrubando minha primeira garrafa de Dreher sozinho. Ajoelhado na frente da igreja da cidade em plena madrugada fria. Mijando nos fundos da igreja. Namorando uma menina que fazia dança do ventre, traindo ela com o melhor beijo da minha vida. Atravessar a ponte para o Uruguai a pé congelando numa madrugada de menos seis graus celsius. Ver meus amigos tocando no Uruguai. Quase levar um tiro no Uruguai. Disparar a arma do meu pai sem querer dentro de casa. A morte do meu amor. A morte do meu amigo. A morte do meu avô. Eu e o Ricardo Ara cantando Nossa Vida Não Vale um Chevrolet e dividindo uma garrafa de conhaque nas calçadas da Cidade Baixa. Tentando pegar umas minas malucas sem o menor resquício de sucesso. Eu e o Ricardo Ara transformando segundas-feiras em nuvens de fumaça e barrigas de cerveja. Rodrigo dirigindo seu Corcel II e arrumando encrencas e comendo garotas que tinham amigas que davam pra mim. A mina que eu levei pra cama e depois perguntou se eu percebi que ela tava grávida. O falso positivo num teste escroto de farmácia. Minha ex-namorada puta com minha tranquilidade cínica e me acertando uma caneta bic bem no meio da testa. Minha ex-namorada puta jogando o abajur na parede. Comprando livros pra mim preu deixar de roubá-los. Comprando bebida pra mim e hot dogs da República e a Vertigo do mês. Minha ex-namorada triste porque não me amava mais, porque eu amava alguém, porque a vida é um saco. A filha da minha amiga me pedindo um sorvete do McDonalds. A gente assistindo um filme sobre bruxas na Sessão da Tarde. Minha amiga no hospital, sem tesão por causa dos remédios. O garotinho com câncer me derrotando no Street Fighter. Os fantasmas infantis sujando o carpete da casa que nunca existiu. Minha mãe fingindo que tava ligando pro meu tio, que trabalhava na Febem, pra mandar me prender porque eu roubei uns bonecos de Forte Apache do meu primo quando a gente tinha 9 anos. Ela me fez acreditar nisso. Tentei fugir de casa, mas não consegui. Meu pai me massacrando com um cinto porque eu desrespeitei uns três mandamentos ao mesmo tempo e ele chegou cansado demais do trabalho pra aguentar esse tipo de atitude. E meu pai, com sua ternura fudida, me ensinando a ter caráter sem nunca ter precisado conversar comigo. Minha primeira comunhão. Eu tocando violão no domingo na igreja. Mentindo pro padre na primeira confissão. Uma mentira sem o menor motivo. Ele perguntou se eu batia nas campainhas e saía correndo. Eu tinha esquecido de confessar essa. Preferi mentir ao invés de dizer que esqueci. Eu tinha isso de sempre preferi mentir e depois me remoer de culpa e rezar a Salve Rainha nas noites em claro. Meu avô se tocando no sofá. Drácula na Band de madrugada. Meu outro avô sem pedaços da perna numa cadeira de rodas, na sombra de uma árvore embaixo da sua casa uns meses antes de morrer. Um dia que fiquei acordado até às quatro da manhã pra assistir Vivos no Corujão quando eu tinha uns sete anos. Por algum motivo a ideia de sobreviventes comendo carne humana pra seguir em frente me atraía muito. Meu pai levantou no meio da noite e riu da minha força de vontade. Um filme de terror com um dentista psicopata na Band de madrugada. Meu avô contando histórias pra mim e bebendo seu vinho por três ou quatro horas a fio. Eu e meus amigos tocando em Pelotas, eu sempre um bêbado idiota arranjando confusão. Minha mulher lá no sul, passando frio, vomitando bebida, comendo a polenta do Van Gogh pela primeira vez. Nós dois na Bahia, bebendo vinho e trepando sem parar num apartamento vazio sem energia elétrica. Tomando banhos gelados. Saindo pra comprar mais bebida e caminhar um pouco e comer um acarajé e depois voltar pra trepar. Meus primeiros meses em Salvador, caminhando pra caralho, dividindo um apartamento com ela e mais oito pessoas. A primeira vez que vi o Julio Reny tocar ao vivo. Careca, Maico, Gentilesa e eu viajando de carro pelo Uruguai pra ver Bob Dylan no Conrad. Chuck Berry em Porto Alegre. Calamaro dando uma lição nos uruguaios lá no Pilsen Rock e o velho Charly Garcia fazendo um show interminável bonito e triste ao mesmo tempo. Aquele diálogo em Down By Law, “O mundo é bonito e triste”. “Sim, é um mundo bonito e triste, amigo”. Eu criança, tocando na barriga morna de um javali recém caçado pensando que talvez a alma dele entrasse dentro de mim.

2 Respostas to “lembranças”

  1. camila Says:

    porra, que foda, amor.

  2. itsaverydeepsea Says:

    Republicou isso em It's a very deep sea.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: