Livro à venda

Meu livro já tá à venda no site da editora. AQUI. Lá vocês também encontram os livros Socos no Escuro, da Camila Fraga e o A fotografia do meu antigo amor dançando tango, do Diego Moraes. Bacana que os três estejam no mesmo balaio. Viemos de uma geração perdida e atrasada dos blogs. Quando eles eram a coisa mais ultrapassada da internet, nós insistíamos lá, com textos diários. Era uma época bacana, a Internet parecia maior quando eu acordava de ressaca, ligava o computador e podia ler pedradas da Camila, do Diego, da Adriana Brunstein, do Ricardo Carlaccio, do Mário Bortolotto, Kleber Felix, Raquel Herzog, Pierre Masato, Marcelo Montenegro e por aí vai, uma atrás da outra… Pra mim, esses dois livros, da Camila e do Diego, são pequenos clássicos da minha geração. Gosto muito dos dois. Lá no site vocês também encontram o livro do Lucas Barroso, outro jovem autor gaúcho.

Abaixo, segue o belo prefácio escrito pelo Mário Bortolotto sobre o meu “Tem um palhaço agressivo e um hooligan triste em algum lugar aqui dentro”, confiram:
.

Nós que não sabemos nada sobre automóveis

Este é um livro de um tempo que o rock ainda fazia algum sentido. Ou talvez seja apenas o livro que prova que o rock faz mesmo algum sentido. Ou não teria sentido existir esse livro. Se o rock não fizesse sentido. Este é um livro de um sujeito sem esperança, mesmo que esse sujeito tenha apenas vinte e poucos anos. E sujeitos de vinte e poucos anos têm como premissa ter esperança. Eu conheci o Bruno numa oficina de dramaturgia em Porto Alegre. Ele era um dos caras estranhos que pintaram na oficina. Ele e outro comparsa. Os outros até podiam ter talento, mas não eram exatamente estranhos. E quando eu digo “estranhos” é porque percebo que eles não fazem parte de turma nenhuma. Assim como eu. Porque mesmo que andemos em gangues, não há como disfarçar a solidão e o abismo como um convite. Depois teve a vez que bebemos uns conhaques no Van Gogh e falamos sobre miséria e exílio disfarçando o assunto com opiniões sobre filmes, livros e gibis. Sujeitos como nós se aproximam apenas para ter a certeza de que não são os únicos. Não é exatamente porque precisam de companhia ou de solidariedade. Nós não ficamos necessariamente à vontade em acontecimentos sociais. É preferível um canto seguro do balcão. Sujeitos como nós se aproximam apenas para ter a certeza de que vão terminar sozinhos. E que são capazes disso. Apenas para afugentar qualquer dúvida de que estão mesmo do lado errado da estrada. Aliás, nós não temos dúvidas. Apenas queremos evitar o constrangimento. Apenas queremos nos certificar. Porque somos eternamente aquelas “crianças sem turma no recreio do colegial”. E ouso afirmar que é por isso que ele me convidou para escrever esse prefácio. Esse livro do Bruno é o atestado de tudo que eu escrevi aí em cima. Seus contos são sempre narrados na primeira pessoa, o que torna tudo ainda mais pessoal. O narrador em primeira pessoa jamais se distancia. Ele não é o técnico na beira do campo. Ele é o centroavante e o zagueiro ao mesmo tempo. Ele está lá dentro esbarrando nos outros personagens, sendo chutado e abalroado por eles. E como é um livro onde o rock é um personagem presente porque sem o rock nem existiria esse livro, o personagem principal ouve e canta rock o tempo inteiro. Como os caras dentro do carro ouvindo “Head Cat” (a banda rockabilly do Lemmy). A trilha já entrega que eles não têm pra onde fugir. E eles não querem fugir. Mesmo que eles saibam que não vale a pena. Eles vão até o fim. Ou como o cara cantando Sabina para o cachorro. Não importa que o filho não venha a nascer. O que importa é que ele iria se chamar “Harvey Dean Stanton” e que é preciso escrever, porque não há mais nada o que fazer entre uma punheta e outra. É um livro sobre sujeitos que não vão se dar bem, sobre “pessoas que mantêm o inferno dentro do coração”, sobre esses caras que se sentem sozinhos e angustiados depois do sexo. Que espécie de panaca consegue sorrir depois de uma trepada? Porque nós já nos acostumamos com os “falsos gemidos” ou porque “algumas mulheres tem essa dificuldade de entender que também são literatura”. Porque nós sabemos que tem uma hora que algo quebra e que não é mais possível colar, então os passeios com os cachorros costumam ser mais longos. Porque fica cada vez mais difícil voltar para casa. Não é um livro que arrisca cortejar o desespero. É um livro que fode o desespero. É um livro destituído de lascívia, porque todo o sexo nele é triste e duro, mesmo que a mulher esteja vestida de Cleópatra em um motel temático. Isso só torna tudo ainda mais triste. E esse é um livro que está fadado a terminar e você sabe que nada vai acabar bem, como um casal de amantes que se conhecem nas férias e que sabem que tudo vai acabar em alguns dias. É um livro de pessoas que não têm pressa de conhecer o abismo, mas que andam em direção a ele com a determinação de um Hemingway enlouquecido indo em direção à hélice de um avião, mas, no caminho, sentam numa banqueta de boteco pra beber mais uma dose ou se esparramam no sofá de uma namorada e jogam vídeo game com o filho dela. A típica determinação dos que relutam. Me senti triste, mas saudavelmente conformado após a leitura desse livro. E eu creio que é assim que os de nossa laia irão se sentir. Os outros vão seguir com suas vidas insistindo na ideia de que há uma luz no fim da estrada. Uma luz e uma arca de um navio pirata e ingressos permanentes num mundo de glamour e inclusão social. Nós sabemos que não há nada lá. E seguimos com nossos passos trôpegos e inseguros. Nós não temos pressa de chegar a lugar nenhum. E seguimos a pé, porque o Bruno e eu…bom, a gente não sabe nada sobre automóveis

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: