Miséria e Exílio – Parte 1

Letícia tá sentada no chão, encostada nos pés da cama, de frente à plateia. Ela fuma
um cigarro. Diana tá deitada na cama, suas pernas estão pra fora, uma sobre cada
ombro de Letícia. As duas estão bem sérias no decorrer da conversa. Nenhuma sorri
nem nada do tipo.
DIANA – A gente tinha um gato. O nome dele era Gato mesmo. Não faz diferença,
gatos não dão bola pra isso. O Gustavo odiava o Gato. Na real, acho que o Gustavo
tinha ciúmes. Sempre dizia que ia colocar o Gato no micro-ondas. Eu ficava puta. Fora
isso a gente se dava mó bem. Quando ele tinha uns doze anos, resolveu que queria
ter um filho comigo. Adorei a ideia. Aí ele pediu pra eu tirar a roupa, ficou batendo punheta, olhando nos meus olhos, e depois disse que eu tinha que beber. Era assim que se tinha um filho de acordo com o Gustavo.

Pequena pausa.

LETÍCIA – Cê bebeu?

DIANA – Bebi, ué. Aí as semanas passaram e eu não fiquei grávida.

LETÍCIA – Jura?

DIANA – Achei que o Gustavo ia ficar puto comigo. Ele dormia até bem tarde nos
sábados. Esperei o pai sair pro trabalho e coloquei o gato dentro do micro-ondas. Eu
não quis assistir, daí coloquei cinco minutos no timer e fui brincar na vizinhança. Me dá um cigarro?

Diana senta na cama, é a primeira vez que a plateia vê seu rosto. Letícia alcança o
cigarro que tava fumando pra ela. Diana volta a se deitar. Letícia acende um novo
cigarro.

DIANA – Quando eu voltei, lá pelo meio dia, o pai tava no telefone com alguém e o
Gustavo tava chorando trancado no quarto. Fui perguntar o que tinha acontecido, mó
inocente, aí o pai desligou o telefone e disse que o Gato tinha sido atropelado. Por
isso o Gustavo tava chorando. Ele deve ter pensado que eu ia chorar e aí me abraçou e
falou que a gente ia comprar outro. Saí correndo pra dentro quarto.

LETÍCIA – Vocês tiveram outro gato?

DIANA – Sabe o mais estranho? Gustavo veio me pedir desculpas. Por ter matado o
Gato. Falou que o Gato não tinha sido atropelado, que ele tinha colocado o Gato no
micro-ondas. Eu disse que ele não tinha feito isso. Aí ele começou a chorar dizendo
que fez sim, mandou eu ir na cozinha e ver que o micro-ondas não tava lá. Porra, o
Gustavo parecia sincero. Mó arrependido.

LETÍCIA – Quando ele chega?

DIANA – Daqui a pouco.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: