São Paulo II

Seis da manhã na cidade. Camila e eu nos dirigimos pra Vila Madalena, perto de onde ela tinha um curso e onde mora o brother que nos cedeu hospedagem dessa vez. Caminhamos por lá e decidimos que precisávamos de um café. Não tem muitas opções na rua do curso. Avistamos uma espécie de café ou bistrô francês e resolvemos que poderia ser um bom lugar, mesmo que não tivesse nada (ou de repente tinha tudo) a ver com a gente. Ela me mostrou um misto com queijo derretido que parecia realmente muito bom, perguntou se queria que comprasse um pra mim, pode ser, eu disse, então me sentei na rua e esperei ela chegar com os cafés e o misto. O misto tava mesmo muito bom. Quanto tu pagou nele? Dez reais, ela disse. Porra, tá maluca? Dez reais por um pão com queijo e tudo o mais e ela apenas disse um foda-se embora também um pouco sentida. No final, ela foi pagar e descobriu que aquele misto custava 25 reais, dez era um mais simples que aquele pelo jeito, mais simples que um pão com queijo, ok, então ficamos andando por ali refletindo sobre essa grande cagada. Ela entrou no curso e eu resolvi que tinha que cair fora daquele bairro – andando, em direção ao metrô, passei por uma loja de artigos militares, minha botina tava com as solas soltas, eu tava mesmo pensando em comprar outra na galeria do rock, mas vai ver ali era mais barato, e era. Tinham vários casacos com estampas militares, sempre quis ter um desses, mas não tive dinheiro pra isso. Daí fui na galeria do rock e fiquei andando por lá nas lojas de CDs e camisas e depois fiquei andando pelo centro, entre os sebos e tudo o mais. Quando a chuva apertava um pouco, parava num boteco e pedia uma dose de dreher, esse era o meu plano pro dia. Numa dessas paradas, em um bar de balcão na Amaral Gurgel, presenciei uma briga física entre dois senhores. Um menino que entregava panfletos foi separar, mas começou a rir no meio disso, todos começaram a rir, eles pareciam senhores conhecidos daquela parte da cidade, acabei logo minha dose e resolvi caminhar até a Comix na Alameda Jaú. Eu já tinha averiguado que, se eu subisse a Consolação, ia dar lá, então comecei a caminhar com minha mochila nas costas e minhas botas com solas descoladas. No meio do caminho tinha um cemitério. Parecia tranquilo lá dentro. Tava uma garoa e um vento bacana durante toda a manhã e isso, sei lá o motivo, me dava a ideia de mais tranquilidade ainda lá dentro. Resolvi entrar. Caminhei entre os corredores. Pensei nos mortos. Não nos que tavam ali. Nos meus mortos. E então pensei em todos os mortos do mundo. Duas garotas se beijavam. Não eram góticas. Pareciam apenas apaixonadas, com suas sacolas da Magazine Luiza no chão e suas audições seletivas e suas línguas ferozes. Segui o caminho e cheguei na Comix e comprei o volume dois de Hellblazer Infernal e não achei mais o Monstro do Pântano do Allan Moore que também tá sendo relançado por aqui. Daí fiquei olhando os quadrinhos por um tempo e caí fora pra beber uma cerveja e comer um prato feito ruim em algum lugar barato. Então, depois de mais uma longa caminhada, fui até o metrô novamente e caí pra Vila Madalena encontrar a Camila. Cheguei cedo demais, numa puta de uma chuva, e tive que entrar num lugar chamado Rei da Esfiha ou algo do tipo. Não gosto de beber durante o dia, já tinha bebido até demais antes disso, mas o que mais eu pediria num lugar chamado o Rei da Esfiha senão a porra de uma bebida. Outros velhos chegaram ali pra beber. Velhos do bairro, que conheciam a garçonete e esse tipo de coisa. Um deles era o asiático e puxou assunto comigo, me lembrou senhor Yang, pai do brother Leo Yang, então resolvi beber um pouco com ele numa espécie de homenagem idiota ao amigo. Embora esse velho fosse japonês e não chinês. Mas tudo certo. Os velhos eram bem racistas. Começaram a perguntar pro japa se já tinha visto japonês negro. O japa disse que já. Ninguém acreditou. Umas negras vão pro japão, lá elas fazem filhos e aí nascem um pouco mais escurinhos, mas é difícil, ele disse. Ninguém pareceu acreditar nele. Fizeram piadas preconceituosas. A garçonete era negra e tava sempre ali na volta e eles faziam outro tipo de piadas com elas, piadas internas, de assuntos que já tinham de antes, pra eles as piadas racistas e boa garçonete negra pareciam coisas diferentes, e talvez fossem um pouco, mas no fundo nunca são. Aos poucos fui enchendo o saco e pedi outra cerveja mas sentei numa mesa afastada. Um mendigo colou na janela e me pediu um prato de comida. Eu falei que podia comprar um salgado, ele aceitou. Mandei trazer um pastel pra ele. Ele ficou comendo lá fora mas começou a gritar insultos ao dono do bar, ou ao gerente, ou ao rei da Esfiha, não sei o que aquele cara era. O cara foi lá e empurrou ele pro outro lado da rua e acabou derrubando o pastel no chão. O mendigo ficou bem bravo mas foi embora e também foi sem noção o suficiente pra voltar com o pau pra fora e ficar balançando ele na janela. Os velhos gritaram pro rei da Esfiha e ele foi lá e empurrou o mendigo novamente e dessa vez foi ele próprio quem caiu no chão e então o rei começou a chutá-lo, eu levantei e saí pra calçada e pedi pro cara pegar leve. O rei ficou bravo comigo e disse que eu que tinha começado a coisa toda, dando pastel pro vagabundo. Meio que a lógica do Capitão Nascimento. Deu mais um chute no mendigo e gritou ameaças, eu fiquei puto e dei um soco no rosto dele, ele se virou na hora e, na verdade, meio que acertou na cabeça, ele quase caiu por cima do mendigo, mas fez um tipo de malabarismo com o corpo e se manteve apenas curvado perto do chão até ficar ereto novamente. Então todos os velhos se levantaram e começaram a caminhar pra fora e eu pensei que não queria mesmo tá ali e que tinha feito merda então me virei de costas e comecei a caminhar xingando algumas porras no ar, não gosto de beber de dia, a bebida pega mais durante o dia, não sei o motivo, e o dia nunca é tão justo como a noite, na verdade, se tem alguma coisa na vida que chega a ser justa, é a noite, nela as coisas quase que acontecem por merecimento, eu disse quase – você não a respeita, você se fode, você a respeita e talvez acorde inexplicavelmente salvo no dia seguinte. Ninguém me seguiu e, por uns momentos, achei que eu tinha saído sem pagar e só depois fui me dar conta que lá a gente pagava a bebida ao pedir, uma por uma. Chegou o momento de pensar se eu parava de beber e ficava com uma ressaca às quatro da tarde ou apenas alongava o porre, optei pela segunda opção e comprei uma garrafa de Dreher num mercado, no caminho passei por várias grandes motocicletas e todos os seus donos pertenciam a algum MC e estavam em bares que pareciam bem caros e elegantes. Na minha cabeça imatura e romântica aqueles ambientes e motociclistas em couro não combinavam muito, mas se for pensar no valor daquelas motos e no Brasil talvez as coisas comecem a ganhar algum sentido ridículo. Geralmente é assim. Sentei num banco e bebi metade da garrafa esperando a Camila sair. Infelizmente ela tinha vindo estragada, às vezes Dreher estraga mesmo fechado, tava sem gosto, uma água amarga, uma vez uma mina vegan maluca mijou na minha cara e o gosto era mais ou menos aquele. Vai ver porque era vegan. Se você come coisas mais pesadas, imagino que sua urina tenha um gosto ainda pior. Então larguei ela na casa do nosso brother e mostrei minha mão um pouquinho esfolada do soco pra camila e contei aquela história toda com um pouco de vergonha e fomos de mãos limpas pro Cemitério de Automóveis. O grande poeta Sergio Mello tava lá na frente, e depois me deu seu último livro. Belo presente. O Ademir Muniz também tava por ali. Fiquei bebendo um pouco de Domecq e umas cervejas e assistimos duas peças da recente Trilogia da Amizade do Mário Bortolotto. Borrasca e Whisky e Hamburguer. Uma é sobre dois amigos, logo depois da morte de outro. E outra é sobre uma amizade masculina-feminina, logo depois de ambos levarem um pé na bunda. Em um momento da peça, o personagem, que dizia não ter saído de casa a semana toda, confessa que teve que sair um dia. Era o dia da Vertigo, ele disse. Pude ouvir a risada de Camila – se identificou pela minha identificação – então abri um pequeno sorriso também. Tinha um cara na plateia, ele tinha me interpelado no banheiro do bar uns minutos antes. Perguntou se eu sabia se ia ter peça do Bortolotto. Falei que ainda ia ter uma e ele e sua mina pareceram bastante contentes. Entendi isso, também fiquei contente que teve duas peças quando eu tava na cidade. Então eles foram comprar seus ingressos e eu entrei pra ver a segunda. Sentou na nossa frente. Riu muito nos primeiros diálogos. Estava mesmo contente, mas acontece que o maluco, que – por sinal – era muito parecido com o Diego Moraes, começou a levantar toda hora pra sair do teatro e depois voltava novamente. Em uma dessas vezes, derrubou a cerveja de um cara, na outra quase caiu em cima de um casal e na quinta e última vez, jurei que o cara que trabalhava por ali e tava organizando todo esse lance de entrada e saída ia bater nele, e também pude jurar que o Diego Moraes cover ia vomitar nele, acho que era isso que ele tava fazendo lá fora, vomitando, ainda o vimos com sua mina na calçada depois, suava feito um porco, atrapalhou a gente, mas, porra, ele tava mesmo muito contente que ia ver a peça. Pobre cover do Diego Moraes. Me compadeci com sua causa, por mais que a noite seja justa. O Domecq tinha acabado no bar e fui atrás de uma outra garrafa de Dreher e não foi difícil encontrá-la. Bebemos um pouco por ali e voltamos a caminhar na garoa e no vento e eu tomei a frente da Camila e do nosso brother e fiquei pensando no mendigo apanhando com as calças arriadas no meio da rua, eu estava definitivamente sozinho, ninguém poderia resolver isso, nem amigo algum, nem o resto do conhaque, nem a morte do rei da Esfiha, eu não tava amargurado, apenas sozinho, e o dia da Vertigo não viria, Escalpo chegou ao fim e a revista não é mais publicada aqui. Segui caminhando e mijando em árvores e pensando numas passagens das peças que bateram forte e falam sobre essas convicções de exílio que me são tão caras. Coisas como essa frase de Borrasca “Não há nenhum sentimento maior de solidão do que sair de dentro da mulher amada”. Ou uma parte de Whisky e Hamburguer, que é ainda melhor que Borrasca, onde diz: “Tem um dia que a mulher que você desafortunadamente ainda ama olha pra você de uma maneira estranha, como se perguntasse: “o que eu tô fazendo aqui com esse cara”? E a filha da puta te olha como se você tivesse culpa dela não achar você mais digno de sua companhia. E qualquer comentário inocente deixa ela irritada. Você dizer por exemplo que gosta de panetone tradicional, sei lá. Que não suporta Chocotone. E ela nem quer discutir com você, mesmo porque ela nem te acha mais digno de uma discussão. Ela quer te humilhar. Ela quer te humilhar publicamente em meio a um jantar de amigos numa pizzaria. Ela quer mostrar pra todos os seus amigos o azar que ela teve quando resolveu casar com você.” É isso aí.

3 Respostas to “São Paulo II”

  1. Aldo Jr. Says:

    E então o senhor veio e não avisou e não nos vimos e não bebemos nada juntos… mas blz! Entendo que a peregrinação pra cá é foda. Nunca dá tempo de fazer todas as coisas que a gente quer… um cu, na verdade.
    Fico feliz que o fim de semana tenha sido de porre e Bortolotto e fico triste pelo mendigo que tomou uns sopapos e perdeu o pastel. Tenho pensado nas pessoas que perdem as coisas injustamente e isso realmente bate meio forte. Escrevi sobre isso (ou escrevi sobre algo parecido com isso) esses dias… enfim, é isso aí!
    Quando voltar, me avise novamente! Abraço!

  2. Anônimo Says:

    Foda.

  3. b.m Says:

    Mas panetone é melhor mesmo, não tem nem o que discutir.

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