2 mil toques

http://2miltoques.tumblr.com/ é o site do escritor André Timm, onde ele convida escritores a falarem sobre suas rotinas, motivos etc. O meu texto acaba de sair lá. Reproduzo aqui:

Só escrevo quando não tenho mais nada pra fazer. Quando não tô com saco pra assistir mais um filme ou ler mais um gibi e também não tenho grana pra bebida. Quando já fiquei uns vinte minutos encarando o vazio do facebook e a galera ainda não traduziu a legenda do novo episódio de Sons of Anarchy. No meu livro, tem um conto onde digo que “só escrevo porque não tenho o que fazer no intervalo entre uma punheta e outra”. A verdade é que escrever é o menos importante. O importante é ficar pensando dentro do ônibus ou na fila do banco. É ver as pessoas no bar de madrugada. O importante é revisar e reescrever o texto que saiu disso tudo. O importante é perdoar a tristeza e respeitar o silêncio. O paraíso é ninguém, Deus é silêncio e é isso aí. Com ruídos inclusos. Já vi escritores dizerem que colocam jazz ou música erudita na hora de escrever. Isso sim eu não consigo. Gosto muito de música e acabo fixado nela e esquecendo qualquer outra linha de raciocínio durante o processo. Também já vi vários escritores dizendo que escrever é uma necessidade, que morreriam ou enlouqueceriam se não escrevessem. Não preciso escrever. Viveria em sanidade apenas com os filmes, os gibis, as punhetas e o facebook. Em maior sanidade, por sinal. Porque escrever, pra mim, é como beber com as piores companhias possíveis. Entrar num bar no meio da estrada pro inferno e pagar uma rodada pros demônios de plantão. Você vai se divertir um pouco, mas não vai sair ileso de lá. Fora os assuntos delicados e as fraturas expostas. Quando criança, toda vez que eu caía e esfolava alguma parte do meu corpo, as feridas demoravam muito pra cicatrizar porque eu tinha um certo prazer em arrancar as casquinhas. Acho que todo mundo tem. Bem, é isso que eu faço quando escrevo. Quando criança, minha mãe tinha essa ideia maluca de que eu precisava ser o melhor em tudo pra me dar bem na vida. Eu tinha que tirar sempre dez. Certa vez apanhei um bocado por tirar nove e meio numa prova de matemática devido a um erro que, segundo ela, foi “pura falta de atenção”. Ela mandava eu ir pro quarto estudar e se eu saísse de lá uma hora depois, ela achava que era muito pouco tempo e pegava meus livros e me fazia perguntas sobre as matérias. Se eu errasse, eu apanhava e voltava pro quarto pra estudar mais, até acertar. Então, pra que ela pensasse que eu havia estudado o suficiente, eu ficava a tarde toda no quarto. Desenhando. Meus desenhos não evoluíam, eu era pior desenhando do que estudando, por isso comecei a escrever. Era mais fácil. Eu fui uma criança que ficava muito tempo sozinha, fui criado pela minha imaginação – acho que o Fernando Pessoa ou algum dos malucos que ele inventou já disse algo assim – e, bem, é muito perigoso ser educado pela própria imaginação. Comecei a escrever porque minha mãe era maluca, porque gosto de passar muito tempo sozinho e porque nunca soube desenhar. E acho que continuo porque eu não sou o melhor em tudo, nunca vou me dar bem na vida, prezo as más companhias e sempre gostei de avacalhar com as minhas feridas.

Uma resposta to “2 mil toques”

  1. ecatroli Says:

    Bravo! Porque gosto dos seus textos.

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