Texto meu na revista Vacatussa8

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Meu texto abaixo, com ilustração de Paulo do Amparo:
Pra quem nunca entendeu os velhos detetives

Liliana tinha apenas trinta por cento da visão. Era casada com um caminhoneiro evangélico e, certo dia, ao chegar de uma viagem, ele a flagrou de quatro no meio da cozinha, com a cabeça dentro do forno. Liliana dizia que sua filha se chamaria Consuelo. “Como a maluca da Ala B?”, perguntei. “Sim”, ela disse, “só que mais espanhola”. Ela gostava quando tocava Hallelujah com o Jeff Buckley na lista do meu MP3. Enchia os olhos de lágrima e falava que se seu marido estivesse ali dançariam até as pernas cansarem. “Se teu marido estivesse aqui, ele ia ser mais um maluco perturbado”, eu disse um dia. Ela sorriu e disse “Não, não” e continuou dançando sozinha. A gente conversava no sol. Inventava boatos sobre as enfermeiras, geralmente envolvendo sacanagens. Liliana inseria boquetes no meio de qualquer história. E tinha as pernas cortadas e os cabelos da Virgem Maria. Um dia seu marido foi visitá-la. Fiquei enjoado e fui até a calçada descolar cigarros com algum pedestre.

O porteiro sempre me olhava abordar algumas pessoas, sem nenhum sucesso, daí sorria e tirava um cigarro da pochete. “Por que não me deu logo, porteiro de merda?”, eu perguntava. Mentira. Eu só pensava em perguntar de vez em quando. Caminhei até a esquina, ele gritou pra eu não ir muito longe, eu só queria ver o caminhão. Tinha os adesivos de para-choque que vocês podem imaginar, já que o cara era evangélico. Mijei em uma das portas e voltei pra fumar lá na frente. O marido de Liliana saiu. “Você é o cara?”, perguntou. “Sou. O melhor amigo de Liliana”. Ele riu e me olhou com uma cara estranha. “Não se preocupe”, eu disse e fiz uma pausa dramática pra soprar a fumaça, “os remédios não deixam que eu faça nada de bacana com ela”. Ele balançou a cabeça e saiu dali. No outro dia, Liliana disse que ele ligou. Que pediu pra que não andasse comigo. Que pressentia algo estranho. Me senti vitorioso. Quase um homem completo. “Por que tu colocou a cabeça no forno?”, perguntei. “Meu marido viaja muito”.

Liliana era linda, linda demais. Pena que ela só podia ver trinta por cento disso quando se olhava no espelho. Se algum dia conseguisse olhar seu reflexo com clareza e nitidez, aposto que funcionaria mais do que todos os remédios. Aposto que ela jamais colocaria a cabeça no forno. “Você só queria se manter aquecida”, eu disse e desejei que tivesse um cigarro pra dar uma longa baforada depois. Mas Liliana não gostava de televisão nem cinema e nunca entendia essas coisas. Liliana tinha a sorte e o azar de nunca ter visto uma novela. Vocês já conversaram com alguém que nunca viu uma novela? É reconfortante e perturbador ao mesmo tempo. “O quê?”, ela perguntou. “Você só queria se manter aquecida” (não sei se repararam, mas quando eu quero falar frases de efeito, troco o tu pelo você – assim falam os velhos detetives). Então ela riu. Sentamos no sol e inventamos histórias que envolviam boquetes e o porteiro. “Uma vez eu me masturbei olhando uma estrela”, ela disse, “só uma estrela. E eu nunca gozei tão rápido”.

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