Gengivas

Esse é o trecho de um texto meu. O Gengivas Sangrentas. Ele saiu nessa edição da Elefante de Menta​, revista do Kleber Felix​ e do Ubirathan Do Brasil​ e também saiu no meu livro. É um texto curto. Só podia ser porque escrevi bêbado. Mas é uma das poucas coisas que escrevi bêbado e acabei aproveitando. Eu curti aquele casal de personagens pra caralho no dia seguinte. Tanto que escrevi uma peça de teatro sobre eles depois. Essa peça vai virar um curta-metragem esse ano, dirigido pelo brother Leandro Afonso​. Vamos ver como esses dois malucos que eu imaginei provavelmente voltando a pé pra casa do Van Gogh lá em Porto Alegre depois de mais uma madrugada desgraçada se saem numa tela. O texto tá aqui em baixo, na real, ele nem tem mais esse trecho da imagem completo, eu acabei cortando na edição do livro, e eu gosto do trecho, foi só uma encanação com ritmo, com esse texto agora, só na Elefante de Menta. e quem quiser ler os outros do meu livro, ainda tenho poucos exemplares à venda.

gengivas sangrentas
Esses caras tão querendo me pegar, um Peugeot preto enfurecido de vidros fumê, tacos de hockey no gelo, coronhadas. Mas tem um sinalizador de luz para aviões que reflete na janela do apartamento, e ela tá fazendo um strip ao som de I’m Your Late Night Evening Prostitute. Tem um teste de farmácia na lixeira do banheiro junto com os algodões negros. E até os ruídos da casa parecem satisfeitos, agora. Tem o jeito que ela ri das histórias que eu conto sobre meus velhos amigos e velhas guerras e derrotas. Você não parece querer vencer em nada, ela diz. Aí eu penso nos algodões borrados na lixeira, os fios de cabelo no ralo, o barulho do mijo e a espera do resultado negativo. Eu também não quero perder. Tanto faz. De qualquer forma, o que vem depois da derrota ou da vitória é sempre um cruel e despretensioso E daí?.
Teve o dia em que ela atirou no espelho. Eu tava deitado no nosso colchão de solteiro lendo um gibi do Lobo e o barulho ecoou pelo quarto. Ela voltou só de calcinha e 38 na mão. Desculpa, ela disse. Tudo bem, eu disse e segui no gibi. Sabe, eu vim caminhando pra casa e o dia tava bonito e o sol brilhava nos meus cabelos e eu tava mesmo me sentindo muito bonita. Eu podia ter certeza que as mulheres me olhavam com inveja e que os caras olhavam pra minha bunda, nossa, eu achava que eu era a mulher mais bonita da cidade e que eu tava saudável e em forma e que você tinha sorte de ter uma mulher bonita e bacana como eu te aguentando dia após dia, sabe? Aí eu cheguei em casa, você nem me deu oi, só seguiu aí deitado, embaixo da merda desse ventilador que só faz barulho. Eu fui lavar as mãos e o rosto e PÁ, o espelho me trouxe toda a realidade de volta. De uma forma nada discreta, sabe? Eu não era nada daquilo que eu tava sentindo. Eu tô coessas olheiras enormes. Aí fui tirando a roupa e entrando em choque, eu era magra há três ou quatro anos atrás, sabe, magra pra valer. Você não me conheceu naquela época, mas eu era magra. Eu não quero envelhecer. Você não devia ter comprado essa arma, ela concluiu. Eu precisava, eu disse. Aqueles caras não vão te pegar. Você não me merece. Você não devia ter comprado essa arma… E os cacos do espelho ficaram no chão por dias a fio, e por cima da pia e entre as cerdas das nossas escovas de dente.
E daí? Ela acaba de dançar, o sinalizador para aviões pisca vermelho nos seus quadris. Ela tá mais triste que o de costume. Ela queria um outro resultado para o teste, queria deixar os algodões pra mais tarde e pôr o seu melhor vestido e sair pra beber uma jarra de vinho no Van Gogh. Ela começa a chorar.

Olha, se tu quer ter um filho tudo bem, mas o nome dele vai ser Harvey Dean Stanton, eu lhe digo. Ela caminha até a janela. Tem um Peugeot preto lá embaixo, ela avisa e fecha as persianas com calma.

2 Respostas to “Gengivas”

  1. Jacy Laranjeira Says:

    Adorei! Uma escrita singular- forte e verdadeira.

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