la mort

A morte é um dos meus temas mais recorrentes. No meu livro, ela tá na maioria dos contos, pelo menos a marca dela, os rastros que deixa, como em Sofia ou em Santidade, por exemplo. Aparece naturalmente. Tem a história que eu quero contar, ela vai ser contada de alguma forma ou de outra, e a minha contribuição, o que eu posso oferecer praqueles personagens, é a morte.

Vai ver é por isso que eu ainda insisto. Não tem nenhum motivo maior. Eu tento acordar cedo pra caminhar por mais tempo com meu cachorro. Daí eu vou pro trabalho, e trabalho o dia inteiro, e chego em casa e tenho minha mulher e a gente assiste Banshee juntos, e tenho os dois cães querendo dar mais uma volta, mijar na grama e cheirar uns rabos, e eu gosto disso, e de acompanhar outras séries, e beber, ver futebol, tube8, essas coisas. Então os cachorros acabam dormindo, minha mulher também e eu ainda sento no computador e escrevo. É bobagem. Eu não espero muita coisa. Mas escrever é um fio de esperança. É a espera por algo que eu não sei o que é e que nunca vai chegar. A não ser que seja a morte.

No último mês, venho escrevendo uma história de terror. Ela começou com uma premissa simples. Uma senhora compra um menino de uma família miserável no interior do Brasil e foge prum sítio com ele. Nesse sítio, o terror começa a se mostrar aos poucos. Eu só tinha isso. Não era pra ser uma história sobre a morte. Não no sentido literal, pelo menos. Era pra ser uma história sobre abusos e sobre a infância. Vai ser também sobre isso, a narrativa tá engrenando e talvez vire uma novelinha bacana. Mas já no primeiro capítulo a morte aparece pra deixar sua marca na personagem principal. Não tive muita escolha. Apareceu, escrevi e gostei da ideia.

Na peça curta Abismos, que o Ademir Muniz montou numa das edições do Quinta em Cena lá em SP, também tem isso. A premissa era um pai policial que foge com o filho pra salvar o moleque da prisão. É uma história sobre pai e filho mesmo, dificuldades de comunicação e tudo o mais, mas a marca da morte tá lá, impregnada no garoto. É claro que qualquer psicologia barata explica minha obsessão com o tema. Não é por isso que tô escrevendo agora, enquanto dou uma pausa na minha novela de fantasmas. É que mais cedo eu tava revisando o roteiro de uma outra peça minha. Gengivas Sangrentas.  Que vai virar o curta Gengivas Cortadas esse ano. O diretor tava me falando que essa semana começa a organizar o elenco e tudo o mais e eu fui ler de novo pra ver se dava pra cortar alguma coisa. Porque eu tô sempre querendo cortar alguma coisa. E esse roteiro é o contrário disso tudo. Ele fala um pouco de instinto. Os personagens já tão mortos de uma certa forma, mas é sobre como a vontade pode transformar qualquer um em animal. Pode te encher de vida, mesmo que seja uma grande cagada. Mas talvez isso até te dê força pra continuar sem pular da janela. Porque ela tá sempre nos chamando, né? E, porra, janelas são loiras atraentes. Provavelmente com sotaque francês.

2 Respostas to “la mort”

  1. Pedro Pellegrino Says:

    Muito bom, Brunão! Queria ler essa sua peça que rolou no “Quinta em Cena “.Grande abraço.

    • brunobandido Says:

      Posso te mandar, Pedro. Mas existe a possibilidade do Ademir montar ela fora do Quinta em Cena algum dia. Se isso acontecer, vá ver. O texto é bem meia boca, mas eles levantaram ele. Ficou bem bacana.

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