nº 2

Vi no jornal que o traficante de quem você comprava drogas foi preso, o ponto inteiro dele caiu, na verdade. É, eu ando lendo jornais. Fico sacando as notícias enquanto espero clientes porque tô vendendo meus discos antigos numa espécie de bazar que montei aqui na garagem. Esses dias vendi aquela antiguidade que você odiava, a do açougueiro francês, com uma aura de santo, que roubei do restaurante de Garopaba que trabalhei no verão de 97. Ela tava ali só pra decorar o ambiente, mas uma senhora com seus sessenta e tantos comprou pro marido. Disse que ele ia adorar e saiu dando risada. Pagou quarenta e cinco contos e eu me senti como se vivesse um dia de sorte. Hoje não. Logo pela manhã a Talita morreu, nem sei se você sabia que ela ainda tava viva, mas pode crer que ela viveu mais seis anos aqui comigo. Teve um tempo que ela ficou bem chata. Mordia minha cabeça e não deixava eu dormir, queria comida o tempo inteiro. Depois foi ficando fraca, não tinha mais ânimo pra isso. E hoje eu acordei, coloquei a comida, ela deu duas ou três mordidas e se retirou. Foi praquele canto que ela gosta na varanda e morreu dormindo. Não sabia o que fazer com o corpo. Minha gata morreu, eu disse pro Armando. Ele é o vizinho, você não conhece, um negão de dois metros que trabalha com costura e namora um cara antipático e baixinho que tá sempre de terno. Que pena, irmão, ele disse. O que eu faço com ela? perguntei. Coloca num saco, joga no lixo, ela é pequena.  E eu fiz isso. Mais tarde me arrependi, achei que ela merecia um enterro, quem sabe até no jardim do Armando, se ele deixasse, corri até a calçada mas os lixeiros já tinham passado. Aí eu abri a garagem, fiquei lendo o jornal e vi a notícia do traficante. Foi um dia fraco. Só vendi um disco do Fabio Jr e o Fly by Night. Na verdade esse eu dei prum garoto pentelho. Só garotos pentelhos são capazes de gostar dessa merda. Às vezes eles até crescem e viram caras pentelhos e seguem gostando. Vai entender. Fechei a garagem, tomei uma ducha, e fiquei pensando naquele ponto. Nas vezes que levei você lá. Tive que pegar um ônibus, desci a umas seis quadras e caminhei até o lugar. Nem parece mais o mesmo. Tem um Bradesco na frente, os caras seguiram vendendo drogas na frente de um Bradesco, pelo jeito. Dei um tempo por ali pra ver se sacava uma figura suspeita. Tava até pensando em comprar umas gramas, só que não deu em nada. Na volta, encontrei um sebinho, tinha uma pá de livros espíritas mas consegui encontrar um do Paulo Wainberg. Parece que a polícia bateu ali ontem, né? puxei papo com o dono. É… não sei quem odeio mais, traficante ou polícia, ele disse e deu uma risada cheia de catarro. Ri junto com ele, e me senti mais uma vez dentro da merda de um dia de sorte.

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