sobre gauchos e mendigos

Em O Caminho de Ida, de Ricardo Piglia:

No pampa, Hudson conheceu um homem de aparência arredia que vivia sozinho numa tapera no meio da planície; era inglês de nascimento, mas tinha ido muito novo para a América do Sul “e se adaptado à vida semisselvagem dos gauchos e assimilado todas as suas noções peculiares; a principal delas, a de que a vida humana não era grande coisa. ‘E daí?’, costumam dizer os campeiros, dando de ombros, quando alguém lhes conta que um amigo morreu. ‘Morre tanto cavalo bom!'”.

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Hudson admirava essa vida livre, que era uma demonstação de desprezo pela utilidade e pelo dinheiro. Em seus livros, os gauchos e os índios pertencem a essa categoria, mas os andarilhos – linyeras ou crotos, como eram chamados no campo – expressavam esses valores com mais nitidez ainda. Havia um pouco disso em Tolstói, disse Rachel, e nos stártsi russos que vagavam pela estepe como mendigos. Os mendigos sempre existiram, disse depois. Estão na Bíblia. Os Salmos são, em sua maioria, cânticos de mendigos desfiando suas ladainhas. E na Odisseia, Ulisses – disfarçado de vagabundo para não ser reconhecido – é obrigado a combater com Iro, um mendigo que ronda as portas do palácio, em Ítaca. Os vagabundos e os mendigos viram passar diante deles, sentados à beira do caminho, séculos de história: os impérios caem, sucedem-se as guerras, mudam as formas de políticas e os sistemas econômicos, mas sempre há alguém que mendiga e vaga pelas ruas vestido com trapos”.

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