texto que saiu na flanzine (o tema era língua)

 

A língua das mães

 

Uma risada maluca veio da rua, nós rimos, mas não deixava de ser fantasmagórica. A minha mãe, ela disse, todos diziam que era uma bruxa. Foi a primeira vez em duas semanas que falou algo sobre a família. Como assim? perguntei. Não sei, as pessoas tinham medo dela. Falavam coisas. A mais estranha que ouvi foi que um professor se apaixonou por ela, nos tempos da escola, e acabaram indo juntos ao teatro. Dizem que depois daquela noite o professor ficou mudo. Uma vizinha viu eles se beijando na esquina de casa. Foi quando os boatos começaram. Desde sempre lembro das pessoas me perguntando se ela tinha a língua bifurcada e  todo tipo de maluquice. Nunca vi nada estranho. Quer dizer, ela era estranha. A nossa casa era cheia de pássaros, sem gaiolas nem viveiro, eles só moravam com a gente. Isso é estranho, eu disse. É sim, ela disse, e não lembro de termos comprado nenhum, eles iam aparecendo. Esses dias eu pensei nisso e veio a imagem da mamãe agachada no meio da sala, toda pelada e com a língua pra fora. Os pássaros vinham e pegavam alpistes da boca dela. Pode ter sido um sonho antigo ou essas memórias que a gente inventa. Sei que depois disso sonhei, duas ou três vezes. Ela tá nessa mesma posição, no fundo do mar, eu tento subir pra superfície e sua língua estica como a de um sapo e me puxa pelos pés.
E o seu pai?, perguntei. Ah, eu não conheci meu pai. Era só eu e a mamãe. A bruxa!, ela disse, fazendo graça com os dedos balançando no ar. Os lixeiros passavam lá fora e gritavam uns com os outros enquanto atiravam coisas no caminhão. Quando criança eu queria ser lixeiro, eu disse. Ela bocejou, colocou a mão nas minhas bolas e ficou brincando com elas. Teve outra coisa estranha, ela disse. Mamãe sempre me levava pra tomar banho no rio. Todo dia de manhã cedo. Ela gostava de caminhar com os pés descalços na areia e me deixava brincar na água. Ela nunca entrava. Um dia, meu pé ficou preso em alguma coisa em baixo da água e eu não conseguia soltar. Eu ainda dava pé, não ia me afogar nem nada, mas não conseguia me soltar de jeito nenhum. Ela entrou na água, mergulhou e me soltou de lá.
No que você tava presa?, perguntei. Não consigo me lembrar. No outro dia, mamãe não me levou pra tomar banho. Fiquei me sentindo culpada e pedi desculpas. Ela disse que tudo bem. Que ia me levar amanhã. Na escola eu descobri. O cais tinha amanhecido cheio de peixes mortos na beira da água. Eram tantos peixes que o bairro inteiro ficou fedendo. Demorou uma semana pra limpar tudo. E muito mais que isso pra nos livrarmos do cheiro. Dizem que demorou um mês pros pescadores conseguirem fisgar algo de novo. Até hoje existem teorias. A mais aceita é a de lixo tóxico, parece que uma fábrica a cinquenta quilômetros da nossa cidade despejava nos córregos. Mas ainda é uma teoria com um monte de furos. É sim, ela disse. Mamãe entrou na água. Um dia antes. E ela nunca entrava.
Eu ri. Mais por que não sabia o que dizer do que por ter achado algo ali engraçado. Lembro que comecei a contar como eu costumava pescar na infância. Primeiro lambaris, usando minhocas como isca, depois traíras, usando os lambaris. Não sei dizer se falei isso acordado ou apenas sonhei. Ela me ouviu, de qualquer forma, no sonho ou na vida, e lambeu meu pescoço até eu não lembrar mais de nada.

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