Conto no jornal

conto jornal - Suzy e Ele-page-001

Pra quem não conseguir ler no jpeg:

Suzy e ele

 

Suzy acordou cedo aquele dia e me acordou assustada. Tinha visto ele em um de seus sonhos. Ele era a morte ou a loucura ou alguma coisa dessas que Suzy nunca conseguiu me explicar. Antes de eu responder alguma coisa, o bebê chorou no outro quarto. Quer que eu vá?, perguntei, Quer dizer, não sei se ele precisa comer ou sei lá, quer que eu traga ele aqui?

Deixa ele chorar, ela disse. Abriu a gaveta do criado mudo e ficou procurando alguma coisa. Tirou um terço lá de dentro. A droga de um terço e começou a rezar. Tentei fechar os olhos e dormir, o bebê seguia se esguelando lá dentro, mas o pior era aquele murmúrio de reza, uma meia hora se passou. Viu, ela disse, eles param de chorar. Param, né?, eu disse. Aham, ela disse. Fechou os olhos e seguiu rezando. Você vai ficar aí rezando até quando?, perguntei. Ela não respondeu nada. Levantei, procurei minhas roupas e me vesti. Onde cê vai?, ela perguntou quando eu tava saindo do quarto. Falei que ia embora.

Ela levantou. Cê tem que entender, ela disse, eu sonhei com ele. Eu não aguentava mais a história desse ele. A gente tinha se conhecido há mais ou menos meio ano e toda vez que eu dormia lá ela falava alguma bobagem sem sentido sobre o ele como se fosse a droga de uma bruxinha escrota do Harry Potter. Bati a porta do quarto, ela não veio atrás. Passei pelo quarto do bebê, a porta tava fechada, resolvi dar uma olhada. Ele tava acordado dentro do berço, mas quieto, caminhei até ele, balancei uns brinquedinhos e o moleque riu um bocado. Dizem que eles não riem porque acham graça, mas ele parecia tá achando mó graça daqueles brinquedinhos.

A porta fechou atrás da gente. Ele é um barato, eu disse. Foi você que fez ele parar de chorar?, um cara perguntou. Ah, não, eles param sozinho, eu disse, tentando entender quem ele era. Quem é você?, ele perguntou. Eu? Eu sou o namorado da Suzy. Hm, ele disse, eu sou o pai do Murilo, te assustei? Eu cheguei faz uma meia hora, ainda tenho a chave, eu tava fazendo um café, quer um café?

Não, eu disse, obrigado. Ele veio ao meu lado, deu um tapinha nas minhas costas e pegou o bebê no colo. Dei uma olhada neles. O cara era bem mais velho que a gente. Suzy não tinha me contado isso. Ficou ninando o moleque e eu me despedi sussurrando que tinha que ir embora. A Suzy tá dormindo?, ele perguntou. Tá sim, eu disse e caí fora. Não voltei a falar com ela por uma semana, até que me ligou e pediu desculpas pela parada do terço. Saímos pra comer um negócio nesse dia, acabamos nos desentendendo no fim da noite por outro motivo e nosso rolo meio que acabou ali. Durante a janta, não toquei no assunto do ex dela. Ela também não. Perguntei sobre Murilo. Ele foi viajar, ela disse. Com o pai?, perguntei. Aham, ela disse, com ele.

Uma resposta to “Conto no jornal”

  1. Arnaldo Says:

    Massa.

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