feminismo radical?

Eu não costumo escrever sobre esse tipo de coisa. Eu não chego nem a ficar com raiva, então escrever também não vai ser nenhum paliativo ou coisa que o valha. É que eu acho tudo muito ridículo e triste e engraçado – como a vida. E é sobre essas coisas que curto escrever – o ridículo, o triste e o engraçado. Tenho visto muita gente pela internet e pelos bares, amigos inclusos, falar – sério – sobre feminismo ignorante, radical, feminazi etc (me pergunto o que eles diriam sobre a Valerie Solanas, né?). Quanto ao termo feminazi, me recuso a precisar defender que é ridículo demais. Mas, vamos lá, ignorante? Bem, a gente é ignorante e burro, é só o que esse país afundado em desgraça há muito tempo nos dá: ignorância. E, pior, não é só esse lance de “armas de manipulação em massa” e de “eles querem que a gente seja burro”. Porque podem até querer, mas eles também são ignorantes pra caralho. Do Congresso ao Orkut, do Supremo aos grupos de WhatsApp da família brasileira, é tudo a mesma coisa. Mas aí o malandro diz, Eles não, eles são espertos, tão lá com nosso dinheiro e a gente tá aqui fudido. O Cunha é gênio, o pastor é gênio. Bem, dizer isso só comprova que a gente tá mais afundado no mar de ignorância que os acusadores de mimimi querem imaginar. Tem mina que não estudou nada, que não leu nada, e tá “se achando feminista”? Que bom. Que dádiva que mesmo sem muita informação ela grite por aí pelos direitos dela. Ela é radical? Ah, qual é, mano? Radical é o machismo. Mais ignorante é o machismo, o machismo é que é o extremo. Se as feministas chegarem aos pés do machismo mais radical, vai ser só uma consequência. E espero que cheguem, pra colocar os manos no lugar deles e pra que os dois lados, talvez, um dia, achem a droga de um meio termo. Porra, tem muito mais marido batendo em mulher do que a gente imagina, tem muito mais estupro do que os que caem na mídia, e tem os que caem na mídia e tem os que a gente sabe e os que a gente imagina e, mesmo assim, tem homem pra ficar achando desculpas e justificativas (e tem mulheres pra ficar achando desculpas também, sob as tutelas de falsos líderes ou deuses ou qualquer coisa que os valha), isso é que é radical, porra, isso é que é ignorante, as feministas ainda tão longe demais dessa merda aí. Mais longe do que deveriam, dentro do meu raciocínio, pelo menos. Por exemplo, esses grupos de combate vivem se apegando a causas da moda, que não devem ser desmerecidas, pelo contrário, o que acho é que, antes delas, tem camadas e mais camadas de podridão e ninguém debate essas merdas no facebook. Não é só o feminismo. Todas as bandeiras. É o foie grais que é combatido quando qualquer carne comum que esteja agora na mesa do brasileiro passou por um sistema muito mais ultrajante. É o cuspe na sessão dos deputados quando eles daqui a pouco vão aprovar leis escrotíssimas e vai ter muito menos barulho. Ou, nas causas LGBT, é quando ficam twitando ou fazendo onda porque não teve beijo gay em novela, por propaganda de multinacional exploradora que foi criticada por ter temática gay. Beijo gay em novela? Quem são os gays da novela? Dois brancos com pinta de héteros ou estereotipados, ricos, bonitos e estáveis? Vão se fuder. Vâmo falar dos gays pobres, “feios”, fudidos, que dão mesmo na pinta (e não teriam por que não dar) e apanham no colégio e apanham dentro da própria casa e são expulsos da própria casa etc. E os que são pretos, porque aí juntam os preconceito, né? E se fodem pra arrumar emprego, e quando arrumam tem que engolir mil sapos por dia, como engolem na rua, em transportes coletivos, em tudo que é diabo de lugar. Não vejo corrente nem abaixo assinado pra falar disso. Depois que isso tiver melhor, aí vai ter beijo gay em novela, porra, vai ter ainda mais propaganda bonitinha de empresa que quer ganhar dinheiro em cima de nicho gay, ‘que tá crescendo no mercado’ – e as pastoras babacas que engulam os sapos, não o contrário (por sinal aí tá outra causa, uma das mais fundamentais a meu ver: a fábrica de pastores babacas e poderosos). São algumas causas feministas menores também, mas que fazem mais barulho que outras de muito maior impacto. Tirar pôster do X-Men? Beleza. Reclama. Se sentiu incomodado, reclama, porra. A empresa faz o que ela quiser, e ela ficou quieta e tirou mesmo, por sinal. Mas como diz o meu amigo Paulo Bono, cadê o protesto contra as produtoras de marketing que obrigam as mulheres a distribuir panfleto com calça de lycra na rua? Mulheres que se sujeitam a qualquer tipo de insulto pra ganhar a porra de uma merreca pra que a vida fique, um pouco, só um pouco, melhor, pros filhos comerem e tudo o mais. Se tem protesto contra isso, eu não vejo no facebook. Eu não vejo os babacas reclamando. Então tem pouco. Tem que ter mais. E acredito que vai ter. As coisas tão mudando, e maluco que ficar enchendo saco com desculpa de politicamente correto, de mimimi, de radicalismo, bem, são os mesmos que inventam desculpa pra mina que é estuprada, pra travesti que apanha na rua só porque os idiotas não conseguem entender o motivo do tesão que sentem por elas e esse tipo de coisa. Racionalizar veementemente contra isso, pra mim, é quase a mesma merda que fazer isso. É isso que é radical extremista. É isso que merece o sufixo nazi. Não o contrário, porra. De boa, essas coisas têm que mudar, as causas têm que ser cada vez menos da moda e mais essenciais – acho até que já tão sendo, porque o lado oposto tá cada vez menos suave em apontar inconscientemente onde é que tá o errado, né? Vide 33 homens, vide família bolsomito etc. Eu não preciso ser de causa nenhuma pra escrever isso aqui. Não sou. Nem me vejo sendo. Eu encho o saco com todos os lados. Eu só quero ficar de boa revendo episódios de Mad Men ou lendo Kawabata. Bebendo com meus amigos ou sozinho. Eu não amo ninguém e, que eu saiba, tenho esse direito. Se disserem que eu não tenho, aí eu vou brigar por ele, e pela solidão e pela tristeza. Enquanto isso, vou seguir na minha, às vezes olhando de fora essas coisas ridículas e tristes e engraçadas – como a vida.

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