o dia em que eu não escrevo

Tenho conseguido escrever algumas páginas quase todo dia. Às vezes cinco, às vezes quinze. Assim a história que tô bolando vai se construindo de uma maneira razoável pra daqui a dois meses eu cortar a metade, reescrever e ver no que vai dar. Nos domingos eu prefiro não escrever, e por isso eles são meus dias preferidos agora. Invariavelmente acordo cedo, tendo bebido na madrugada ou não. Dou comida pros cachorros e desço com eles. Aí eu subo, deixo a velhinha em casa e volto pra rua com o mais novo. Nossa rota é quase sempre a mesma no domingo. A gente sai da Brigadeiro Luis Antonio em direção à Santo Amaro e passa pela feira e aí vai até o Estadão e passa pela feira da Major Quedinho também, gosto de andar pelas feiras, sempre acabo pensando em comprar moela ou fígado ou sardinhas pra fazer de almoço, mas nunca ando com dinheiro, então eu penso em levar dinheiro no próximo domingo e isso nunca acontece também. Depois a gente vai pra Praça Roosevelt, onde só sobraram destroços, mendigos e dois ou três caras andando de skate. Eu me sento um pouco pra ver e fico pensando em coisas bonitas e arrasadoras, como o suicídio do John Goodman na primeira temporada de Treme ou o livro do V. S. Naipaul que tô lendo. Então seguimos até a Praça da Sé e sempre gosto de assistir uma missa que os africanos fazem ao ar livre em sua língua nativa. Alguns cachorros dos moradores vêm cheirar o meu e, em geral, uns mendigos vêm conversar sobre cachorros também – uma família deles, que fica em frente ao Tribunal de Justiça, tem uma vira-lata bem parecida com o meu, e o dono dela e eu, que só suspeitamos de que misturas podem ter saído, gostamos de compartilhar características parecidas entre os dois. Saindo da praça, caminhamos até a feirinha da Liberdade antes de voltar pra Brigadeiro. Aí eu subo em casa, deixo o cão, e vou na padaria comprar um frango assado e uma coca-cola pro almoço. É mais ou menos nessa hora que minha mulher costuma acordar, hoje ela tá viajando, então eu comi sozinho ouvindo os esportes. Nesses momentos que algumas coisas que vou escrever durante a semana vão tomando forma na minha cabeça. Agora tô escrevendo essa novela sobrenatural. Mas um dia ainda vou escrever um romance pulp chamado Livre é o lutador de sumô. Pensei nele hoje, enquanto caminhava. É sobre um poeta que trampa de ajudante de cozinha num pequeno restaurante chinês. Ele também descola uma grana em campeonatos ilegais de vale tudo em academias fechadas na Zona Leste. Ele é gordão e sensível e sempre volta a pé das lutas, geralmente no domingo de noite, geralmente sob uma garoa, construindo poemas em sua cabeça.

Uma resposta to “o dia em que eu não escrevo”

  1. botocudo reviu Says:

    o relato é todo muito bacana. sempre gosto quando tem cachorros. mas curto bastante o enredo do poeta/ajudante de cozinha. hahha serei um dos compradores do livro.

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