Yesterday Once More (Morte entre Amigos)

Canções antigas que voltam como amigos perdidos. É  disso que fala essa música do Carpenters que o Bortolotto colocou – em outra versão – na trilha de Morte entre Amigos. É um tema recorrente nas coisas que escrevo: amigos perdidos (tema do Calamaro también). São três amigos fazendo tempo antes de irem para o funeral de um outro. Então o texto, pelo menos na minha visão agora,  bem depois que escrevi, é mais sobre a amizade do que sobre amigos perdidos. Não bem uma exaltação à amizade. Tem uma hora que a Lina diz assim “Acho que esse lance que a gente tem… Esse lance de ser amigo. Vai ver é tipo uma fuga. Ser amigo de alguém. Aí a gente perde um amigo. A gente fica um tempo meio que assim. Sem ter pra onde fugir”. Eu não entendo de teatro, mas gosto de escrever essas cenas ou peças pra me divertir entre um conto e um esboço de livro qualquer. Porque eu não me divirto com quase nada. Na verdade, escrever essas peças é a única coisa que consigo pensar agora. O que não quer dizer que sejam textos divertidos. Pelo contrário. Os dois que assisti, Abismos (por vídeo) e o dessa semana, são meio que o oposto. O Ademir Muniz e o Bortolotto botaram ainda mais desse oposto em suas direções, o que eu adorei. Outra coisa que sempre tem no teatro que gosto e não tem nos meus textos são aqueles momentos em que a poesia deixa de estar só na aura da cena e vira conteúdo – aparece numa puta frase de um personagem. Uma frase que uma pessoa normal talvez não dissesse naquela situação, mas isso é dramaturgia, e, bem, não é pra pessoas normais. Sempre achei isso essencial num texto de teatro ou boa TV. Admiro pra caramba. Mas também não tenho muito esse talento. Toda vez que tento levar a poesia pro diálogo cometo o erro que muitos cometem e tendo ao forçado, sei lá. Eu poderia me esforçar e trabalhar duro nesse fundamento, já que admiro tanto. Mas e aí? Eu disse que tava me divertindo escrevendo teatro. Que vá a merda o trabalho duro… Daí que eu pensei em ligar o foda-se e meus personagens falarem só o que acho que talvez pessoas normais falariam (pelo menos tendo em vista que ninguém é muito normal). E é por isso que faço questão de deixar uma mulher falando “eu tô tão triste” quando todo mundo já sabe disso, porque as pessoas infelizmente falam essa frase, não é? E é por isso, também, que eu sempre digo que não gosto muito dos meus textos pra teatro. O pessoal faz aquela cara de que eu sou um idiota, um falso modesto ou sei lá, mas na minha concepção isso não é o texto de teatro que acho bom, sempre acho que vai ficar chato em cena etc. Só que os dois que vi, bem, eu curti. Aí entra o paradoxo, que na real é a sorte de ter tido o Ademir e o Mario Bortolotto dirigindo as peças e de ter atores bons nelas. Em Abismos, o Nelson Peres só de se mexer em cena, antes mesmo de falar meu texto, já faz ele ficar melhor. O Gabriel tá nas duas montagens, ele não tem formação de ator e acho que nem muita experiência ainda, mas ele é um cara esperto, e sensível (escreve muito bem também), não tem pompa, manda muito… O Gabriel vai ser cada vez melhor em cima de um palco. Em Morte entre Amigos, que reprisa semana que vem no Terça em Cena, o Bortolotto já disse que o negócio é down, é mesmo, e o Gabriel, a Renata e o Marcelo foram muito bons dentro disso, foi como se eu tivesse vivendo um monte dessas coisas que às vezes voltam, coisas nada divertidas, que me levaram a escrever tanto sobre amigos perdidos.

Uma resposta to “Yesterday Once More (Morte entre Amigos)”

  1. Gabriel Says:

    Do caralho, Bruno. Grande abraço.

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