Hipnose e Briga

 

 

  1. (A Hipnose)

Esses dias, numa das minhas rituais caminhadas com o cachorro, passei pela Paulista e um cara tava hipnotizando um grupo de pessoas. Parei um pouco e fiquei olhando. Eu conhecia várias daquelas técnicas. Quando criança eu fiz amizade com uma menina gaga porque ela também gostava de Cazuza (a gente tinha oito anos). Acontece que um dia, num parque de diversões que montou seus brinquedos na beira do rio da cidade, um senhor ficou ouvindo nossa conversa e veio falar com a gente. Eu morava na fronteira com o Uruguai e ele era urugaio. A gente não entendeu nada do que ele tava dizendo, aí ele se afastou, chamou sua esposa e ela explicou em um espanhol devagar que ele podia curar a gagueira da minha amiga.

A gente só tinha que pedir pra nossos pais nos levar na casa dele – a única laranja em determinado lugar do outro lado da ponte. Não tenho certeza se a gente pediu pros pais dela nos levarem ou não. Tenho uma vaga lembrança de que ela pediu sim, e eles ficaram assustados e disseram pra gente fugir desse homem toda vez que encontrasse com ele. Eu já sabia o que eram pedófilos, tinha um velho que morava no lado do nosso colégio, e todo mundo sabia sobre as sujeiras dele, todos os pais mandavam tomar cuidado e tudo, ao mesmo tempo que ninguém nunca fez mais do que isso. O motivo é óbvio. Ele só levava meninas muito pobres pra casa dele, “negrinhas” como se chama lá de onde eu venho, meninas em estado de miséria, e ainda dava uns trocados pra elas. Tinha outro cara também. Ele era um pouco mais novo e tinha um carrinho onde vendia panchos no centro. O alvo dele também era esse. Menininhas miseráveis. Quem ia ligar, não é? Além do mais ele fazia os melhores panchos da cidade. Razões suficientes pra pedófilos se safarem no meio de gente racista e hipócrita.

Então é isso, tenho leve impressão de que encaramos aquele senhor uruguaio, o senhor Lico, como um pedófilo. E corri nas duas ou três vezes que passei por ele, embora ele sempre tivesse interesse mesmo era na minha amiga. Mas uns três anos depois, quando eu já tinha uma bicicleta e pedalava até o Uruguai porque achava as meninas de lá mais bonitas, eu parei na frente da casa laranja. Ele tava sentado na calçada com a mulher tomando chimarrão. Perguntou se eu ainda era amigo de la chica tartamuda. Eu balancei a cabeça. A mulher dele me disse que era viciada em cigarros antes de conhecer o marido e ele que a fez parar, através da hipnose. Explicou em que consistia isso afastando o máximo que podia dos filmes de terror e aproximando didaticamente das retóricas motivacionais. Por algum motivo acreditei naquilo e no sábado seguinte levei minha amiga até eles. Não dava pra não pensar em filmes de terror. Na minha infância o Uruguai viveu uma puta crise, arrastado pela Argentina, e a maioria das suas cidades eram como lugarejos fantasmas. Não tinha quase comércio aberto e parecia não morar ninguém na maioria das casas. Só faltavam as bolas de feno pelas ruas de terra e os lençóis voando por aí com furos nos olhos.

Eles nos sentaram em um sofá, ofereceram doces e explicaram tudo que ele faria. O velho perguntou se eu queria ser hipnotizado também, pra ver como era, mas a palavra pedófilo ainda balançava entre um lado e outro da minha cabeça e é claro que eu disse que não, ia ficar assistindo. Então ele fez uma série de testes que mais pareciam brincadeiras e depois colocou ela em um estado profundo de relaxamento. Primeiro ele fez palhaçadas, coisas que me fizeram rir, como fazer com que minha amiga esquecesse o próprio nome e visse o Cazuza na sala ao invés de mim. Só depois disso que colocou ela pra relaxar de novo e começaram conversas relacionadas à gagueira, mas de um jeito muito simples, ele se esforçou pela primeira vez pra falar em português correto e não lembro muito do conteúdo, só que quando ela abriu os olhos uma meia hora depois não gaguejava mais. No sábado seguinte fomos lá de novo, ele faz mais uma sessão durante a tarde e pelo que sei ela não sofre disso até hoje. Eventualmente ela contou aos seus pais e se não me engano eles foram lá e lhe deram muitos presentes, como garrafas de vinho e um leitão inteiro, pronto pra ser assado.

Eu voltei e disse que queria aprender hipnose. Ele aceitou me ensinar porque eu parecia um menino responsável e no dia seguinte tava hipnotizando a mulher dele e um ou dois estranhos que ele chamou da rua. É ridículo de fácil, na verdade. Basta a pessoa na sua frente não querer te fuder e você saber vestir a carapuça do mago. Só isso e umas técnicas simples. Nada demais. Com o tempo, fui desencanando a ponto de esquecer do señor Lico pela maior parte dos meus anos, como se ele mesmo tivesse programado isso, em uma de suas hipnoses.

 

  1. (Briga de mulheres)

O que me fez parar de assistir o hipnotista aquele dia foi uma confusão que parece ter vindo desde aquele shopping perto do Masp e parado bem na nossa frente. Duas mulheres gritando uma com a outra até chegarem às vias de fato. Meu cacharro latiu. Atrapalhou todo mundo na hipnose e uma cambada de homens ficou observando com os olhos cheios de diversão. O Linguinha me pediu esses dias pra eu escrever um texto pra ele montar e ontem mesmo eu escrevi, o personagem diz uma hora que a diversão é uma ideia perversa. Muitas vezes ela é. Eram duas mulheres bonitas. Há um tempo eu seria um desses homens. É algo mitológico na cabeça de um adolescente duas mulheres bonitas brigando. Não sei quem construiu esse ideal instintivo, mas pra mim deve ter sido algo entre as pautas do Gugu Liberato e a Lucy Lawless. E claro, a maior parte dos homens não passam de púberes primitivos, não importa muito a idade, e não tô dizendo que eu não seja um deles, mas depois de um tempo passei a enxergar a violência – qualquer tipo de violência – como eu enxergo quase todo o resto das outras coisas: com tristeza. Não uma tristeza arrasadora nem nada do tipo, é mais a constatação da tristeza do que a tristeza em si – uma película de melancolia entre eu e o resto. Quer dizer, é óbvio que há tristeza em duas mulheres se atracando na porrada, ou dois homens, ou o que quer que seja. E há tristeza nesses vídeos de policiais batendo em meninos protestando por escola. Mas também existem outros sentimentos que a violência traz, até necessários, não sei, desapego, revolta, superação, vingança, autoafirmação, paz (sobretudo) – vá lá. É que eu só acho muito triste hoje em dia. Eu tive meus tempos de brigas, e ganhando ou perdendo, o fato de saber que eu tenho raiva suficiente pra quebrar o nariz de alguém, por mais supostamente odiável que seja esse alguém, ficar triste com isso me parece inevitável, até porque eu nunca de fato odiei em quem eu bati. Eu não tava brigando contra molestadores, evangélicos cagarregras ou neonazistas e nem essas figuras eu sei se odeio. Eu tava brigando na maioria das vezes contra a chatice e na maioria das vezes eu devia tá sendo chato também. A chatice é um negócio invencível. E eu concordo com a porra do Cazuza, não há perdão para os chatos. Mas também só há uma penitência. Dar as costas e cair fora.  Acho que não dou um soco há uns três anos (não em seres vivos pelo menos), só que é claro que a gente é cheio de violência e só o fato de eu dar um grito pros meus cães ou uma resposta seca pra minha mulher, deixando um resquício de raiva se esvair, já é motivo suficiente pra ótica da tristeza ganhar a vez e eu precisar de algumas horas sozinho pra ver se me fortaleço de novo. Há quem diga que isso é bobajada cristã demais. Mas também é Johnny Cash demais. E foram dois caras legais, Jesus e Johnny Cash, pelo menos eu acho. E nem tô condenando quem precisa da violência ou odeie de fato outras pessoas. É bastante compreensível na maioria dos casos. De repente eu só passei por circunstâncias que fizeram com que isso fique mais fácil ou mais viável pra mim. Aquelas mulheres. Elas rolaram no chão. E dois policiais não conseguiram conter. O hipnotista desfez a roda porque qualquer possibilidade de concentração foi pro saco. Um casal veio brincar com meu cachorro e ele latiu feito um insano pra cima deles. Meu cachorro nunca mordeu ninguém. Mas ele é medroso demais, ou antissocial demais, e definitivamente não gosta de interagir com estranhos. Você precisa ir algumas vezes na minha casa e até dar comida pra ele pra que  a interação dele mude de latidas malucas a pedidos de carinho, e eu tô falando comida de verdade, não a merda desses petiscos de cachorro. É compreensível. Ele cresceu com dois humanos um tanto antissociais, eu e minha mulher, e eu disse, ele nunca mordeu ninguém. Não é violência. É outra coisa. Era algo assim que eu tava sentindo quando a gente se afastou da confusão de volta pra casa. Outra coisa.

 

 

 

2 Respostas to “Hipnose e Briga”

  1. Kimura Says:

    A inevitável tristeza pós euforia, seja de raiva ou alegria.
    Muito bom Bruno.

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