abre

Tenho bebido cervejas na varanda. Sozinho. Mais sozinho do que eu poderia ficar em qualquer bar dessa imensa cidade. Coloco Sabina pra tocar, ou Calamaro, às vezes uma balada arrasadora de southern rock ou o disco Abre do Fito Paez. Sempre que escuto esse disco fico pensando que ele deve ter chamado um ghost writer. Não é possível, quantas letras boas num disco do Fito Paez. Às vezes parece encarnar um Dylan, às vezes um Caetano, sei lá – Sabina, por suposto. Tem um prédio de faculdade aqui na frente. De noite, se as luzes estiverem acesas, consigo enxergar dentro das salas. Mas nessas horas em que eu bebo só costuma sobrar o caseiro, o vigia, o cara da manutenção, não sei o que ele é, sei que fica quase todo tempo no último andar, que é uma espécie de copa, e que tem uma sacada onde ele sai pra fumar na escuridão e só vejo o ponto vermelho do cigarro aceso. Hoje, a duas salas abaixo, tinha gente também. Era uma espécie de escritório ou sala dos professores. Um homem e uma mulher, ambos professores ou professor e aluna ou o contrário, vai saber, ela sentada num sofá e ele em uma das cadeiras da mesa, ficaram ali, conversando por horas. Em algum momento olhei de novo pra sala e eles tavam trepando. O vigia ou caseiro ou cara da manutenção tomava um café dois andares acima. Ela tava de bruços na mesa, com o vestido levantado até a metade das costas. Ele bombava por trás, com uma cara assustadora. Pensei em chamar minha mulher pra ver. Mas eu tava triste demais pra isso. O sexo de verdade. O sexo mesmo. O sexo do povo. É uma das coisas mais feias que a gente pode topar por aí. Suja e deprimente. Sempre achei isso. Lembro das minhas primeiras namoradinhas. Meus dedos furtivos molhando seus corpos e eu saía de lá e voltava pra casa com aquela culpa cristã pregada no peito, com a sujeira encrustada na alma (contei isso uma vez pra uma namorada. Ela me disse que eu me sentir assim era típico de uma pessoa do signo de peixes. Ela era ligada nesse lance de signos. Nunca entendi muito bem, só que também não ignoro, pois tudo que ouço dizer sobre homens de peixes é que são caras sensíveis, desligados, que vivem no mundo da lua, que não têm muita ambição, que sonham com alguns planos mas nunca concretizam nada, que enxergam beleza na feiura, que sempre dão moedas pros mendigos e quando não dão se sentem culpados, que são místicos, religiosos, mas acreditam em tudo, que atraem más companhias e sob a influência de más companhias carregam certa tendência ao vício em drogas, além da inerente tendência ao suicídio, e também, sem nenhuma exceção, são homens de pau pequeno. Bem, nem tudo é verdade. Eu nunca cheguei perto de me viciar em alguma droga). Quando li o prefácio que o Mario Bortolotto escreveu pro meu livro de contos, notei que ele percebeu que todo o sexo naquelas páginas não tinha a menor lascívia. E ele tava certo. É um narrador em luto, trepando ou broxando como quem faz o imposto de renda pra seguir sobrevivendo e só. Claro que acredito na lascívia. Encontro com ela nas madrugadas mais interessantes. Mas ela é sempre antes, raramente depois. O que sobra é a feiura e o tesão. Constatei isso pela centésima vez nos dez segundos que meus olhos ficaram naquele casal transando. A beleza não serve pra muita coisa. A beleza só serve pra fazer as pessoas chorarem.

2 Respostas to “abre”

  1. Ademar Says:

    Muito bom. Parabéns!

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