Antologia Nick Cave

Saiu a antologia Nick Cave, organizada pelo Diego Moraes. Meu conto abaixo, o resto aqui.

 

Todos aqueles russos

 

Nick rasgou meus livros beats e me mandou ler a bíblia. Não toda, alguns trechos que ele tinha sublinhado. Depois me passou Homero, Auden e Berryman, nessa ordem. Eu respeitei. Nick sempre foi mesmo um cara muito mais esperto do que a gente. A gente só se achava esperto. A gente costumava mentir que tinha lido todos aqueles russos enquanto o Nick tinha lido de fato, todos aqueles russos. Talvez por isso o pessoal não fosse muito com a cara dele, sei lá. Eu ia. A gente ficava bebendo cerveja de noite na beira do rio. Eu era filha única de pais na terceira idade e ele também, nunca falamos muito sobre, mas crescemos em volta dessa ideia de morte, com a ciência de que a gente seria órfão mais cedo que os outros e talvez estivéssemos, mesmo que sem saber, nos preparando pra isso. Nas primeiras noites na frente daquele rio Nick parecia um cara que falava pouco, mas eu acho que foi só o tempo de se soltar e depois disso eu que comecei a falar pouco porque preferia ouvir o Nick falar – os outros garotos da minha idade tinham uma voz idiota, meio aguda e emocionada demais, o Nick não, o Nick tinha aquela voz que parecia um poço sem fundo e parecia que ele já tinha nascido com essa voz.

Não há muito pra se falar sobre ela. Podia ser a voz de Deus, ou mesmo a voz do pai do Nick. Eu vi o pai do Nick quando minha mãe foi na casa dele encomendar um armário sob medida. Ele não morava com Nick, ele morava afastado da cidade, tinha uma casa pequena e um galpão enorme onde ele fazia todos aqueles móveis de madeira. Eu fiquei dentro do carro olhando os dois conversarem. Ele enrolou e acendeu um cigarro em menos de meio minuto e depois disso toda hora assoprava fumaça em cima da minha mãe – não que fosse um tipo escroto e parecesse não se importar com isso, parecia só que ele não era capaz de perceber. Quem conheceu minha mãe sabe que ela foi a senhora Frescura então imagino que o pai do Nick fosse mesmo um carpinteiro muito foda pra ela se sujeitar a toda aquela fumaça.

Ela voltou pro carro tossindo e ele seguiu nos olhando enquanto pegávamos o caminho da estrada. Era um tipo gordo, gordo mesmo, com cabelo liso branco cumprido e sem barba nenhuma, quando morreu, fiz questão de ir no velório e confirmei, ele não tinha a pele áspera de quem se barbeia todo santo dia, era macia, virgem, como se os pelos nunca tivessem chegado. Nick era magro como um esqueleto e tinha braços finos de graveto e naquela época ostentava um bigode ralo e ridículo, não parecia em nada com o pai, nem que comesse todos os hambúrgueres do mundo pareceria. Os dois eram estranhos, claro, e pareciam profundos, por isso acho que a voz era a mesma.

Nick ainda não tinha me beijado, mas voltamos de mãos dadas do rio duas ou três vezes. Ele me deixava na frente de casa e dizia que ainda ia descolar um fumo antes de dormir. Ele nunca levou fumo pro rio e um dia eu pedi. Ele disse que podia me conseguir um pouco mas queria que eu fizesse um favor a ele também. Nick queria ir no fliperama e ele queria que eu fosse com ele, mas queria ir numa noite em que o resto da minha turma não tivesse por ali. A gente foi numa quarta-feira, que era dia de jogo no ginásio e quase todos os garotos jogavam e as meninas iam olhar pra tirar sarro deles. O lugar tava quase vazio, convidei Nick pra jogar os disquinhos e ele não quis. Foi direto pra máquina do Donkey Kong e não saiu dela por umas duas ou três horas enquanto eu brincava no Daytona e no pinball. Uma hora eu olhei e ele tava sorrindo e foi a primeira vez que eu vi o Nick rir.

Perguntei pelo fumo quando ficou tarde e nos colocaram pra fora. Tá aqui, mas tô cansado demais pra ir fumar, ele disse. Perguntei onde ele costumava fumar e ele disse que na beira do Britol. O Britol é como a gente chama uma espécie de depressão que tem depois da floresta aqui na região. Se formos por cima, dá pra chegar até uma espécie de muro de rochas e depois dele é que vem o buraco. Combinava com o Nick. Fumar sozinho na borda do precipício. Eu disse que mesmo que ele não tivesse cansado eu jamais ia sentar naquele lugar e que a gente podia fumar no rio mesmo. Ele riu e foi a segunda vez que eu vi o Nick rir e por algum motivo uma ou duas lágrimas desceram pela minha bochecha, Nick limpou e disse que a gente podia fumar na casa dele. Meu coração disparou, acho que eu dei uma gargalhada estranha e gaguejei ao mesmo tempo e o Nick segurou minha mão e a gente caminhou até sua casa. Era um quarto e sala, Nick dormia na sala e a mãe no quarto. Ela passa a noite na cada do meu pai quando quer fuder. Foi assim mesmo que ele disse. Eu ri meio sem jeito e ele me beijou.

Nick me deixou em casa de manhã e foi depois disso que ele sumiu. A mãe dele disse pra polícia que fazia tempo que ele ameaçava fugir e claro que eles descartaram qualquer busca por sequestro, assassinato ou suicídio depois que ela disse isso porque ficou muito mais cômodo pra eles. Nick nunca comentou sobre fugir nas nossas conversas. Nem era algo que dava pra se pressentir em sua aura. Quer dizer, pra todo mundo daqui foi fácil acreditar que um garoto como ele fugiu porque eles só conheciam o Nick de uma forma superficial. O Nick não era como qualquer garoto esperto de uma cidadezinha estúpida. O Nick gostava daqui, do rio, da floresta, da facilidade que um menor tem pra descolar cervejas e da solidão de uma cidade estúpida. Naquela noite eu vi no sofá um livro do Bulgakov, Coração de cachorro, e pedi emprestado porque eu gostei do título. Nick falou que ainda tava lendo.

Semana passada eu dei a Bíblia sublinhada e os Auden e a Ilíada pro Artur. É que ele passou o mês todo mais quieto que o de costume. Nós caminhamos até o Britol, acendi um baseado e disse que ele já tinha idade pra experimentar. A gente ficou olhando um tempão lá pra baixo. Esse é o seu pai, eu disse. Como?, ele perguntou. Esse aí, eu disse, o precipício. Ele deu uma tragada, tossiu um monte e depois riu e foi a primeira vez no mês que eu vi o Artur rir. Eu contei pra ele que o armário da nossa casa foi feito pelo avô dele. É bonito aquele armário, ele disse e ficou um bom tempo em silêncio até perguntar se a gente podia voltar, nessa pergunta, só nessa pergunta, ele teve a mesma voz do Nick, que devia também ser a voz do pai de Nick e a de Deus.

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