notas

Uma hora bebendo sozinho em um bar da Nestor Pestana

 
Um senhor de sessenta anos resolve levantar da sua mesa e se dirigir até outra para conversar com um senhor de setenta anos. Tá um certo frio na rua, mesmo sendo dezembro, e eles vestem pulôveres e o mais velho usa uma boina e luvas com os dedos cortados. Parecem fazer amizade e trocam assuntos por uns vinte minutos. O senhor de sessenta anos se levanta e se despede, vai até o balcão e pede mais uma cerveja. Enquanto o garçom não chega com sua garrafa ele volta até a mesa do senhor de setenta anos e pergunta Você gosta de rock? Olha, diz o senhor de setenta anos, na minha idade eu dançava Twist, mas hoje eu só gosto de música romântica. O senhor de sessenta anos parece decepcionado, volta para o balcão, pega sua cerveja e senta em outra mesa, sozinho. Depois de dar o primeiro gole, ele diz: Eu ia mostrar minha banda pra ele.

Enquanto isso tudo acontece, uma mulher que fala muito alto conversa com seu amigo no bar ao lado. A frase que ela mais diz é Ai, que delícia. E ela fala isso bem alto mesmo. Às vezes incrementa: Ai, que delícia, caralho. Ela tava feliz por ter encontrado o Igreja, que era seu amigo há 20 anos. E ela ia de mesa em mesa e falava sobre o Igreja e apontava pra ele. As pessoas olhavam pro Igreja e ele sorria. Eu não sei bem por que razão, mas quando você olha para o Igreja você não estranha nem um pouco que ele seja chamado assim. Quando ela já tinha puxado assunto com todas mesas da calçada do bar ao lado, ela veio pras mesas da calçada do meu bar. Fui o primeiro alvo. Eu moro em Campinas hoje, ela disse, já casei, já voltei, já separei de novo, mas eu venho uma vez por mês pra cá e hoje encontrei o Igreja. Pode crer, eu disse, ele é teu amigo há mais de vinte anos. Ela deu uma risada alta e falou Ai, que delícia. Ela era muito magra, dessas pernas altas e finas que começam numa bundinha que pode ser inteiramente envolvida com apenas uma palma de uma mão. E ela veste uma blusa que mostra sua barriguinha de fora, que deve ser o único lugar do seu corpo com alguma gordura à mostra, por causa da cerveja. Hoje é dia de ir pro Love Story e se acabar dançando, ela disse. Eu fiquei só olhando pra ela. Eu conheci a Luana Piovani no Love Story e ela é minha melhor amiga agora, tá bom? Você sabe quem é a Luana Piovani? Sim, eu disse, a Babalu. Não, caralho, a Babalu era a Deborah Secco, ela diz e vai pra mesa seguinte.

Na mesa da frente, um casal de homens está se conhecendo. Eles não sabem nada um do outro. Provavelmente se encontraram pelo Tinder ou por um desses aplicativos pra quem desistiu da difícil arte de viver. Um deles, veemente, fala que não gosta da história de Fantasma da Ópera então seria impossível que ele gostasse do musical, além do mais, ele leu Os Miseráveis e adorou a leitura mas odiou o filme, não só o filme ruim com o Wolverine, todos os filmes, se até as histórias que ele gosta ele odeia o musical, imagina as que ele não gosta. O outro tem que ficar quieto diante de um argumento desses e ir se acostumando a ideia de que seu novo parceiro de foda não vai assistir a porra de um musical com ele, ou que ele não vai fuder com um cara que não gosta de musical, enfim, não escutei muito mais dessa conversa pra saber o final desse dilema.

Meu telefone tocou. Eu avisei onde tava. Ela avisou que tava indo me encontrar. Enquanto isso a mulher do Ai, que delícia, falou Bicha em alguma conversa que tava tendo e quase se meteu em confusão com uma travesti que passava. Mas acabaram amigas e trocaram um longo abraço. O cara que tava na mesa-alvo da Ai, que delícia, falou Parecem duas travestis, a mulher que tava com ele riu, mas a Ai, que delícia não escutou.

Ela chegou e perguntou por que eu tinha ido beber naquele lugar. Eu disse que não conhecia ninguém na mesa que a gente tava, e eu precisava ficar um pouco sozinho e que eles tavam discutindo se foi golpe ou não. Ela riu. Pediu uma caipirinha pro garçom. Eu não gosto de caipirinha, mas eu imagino que mesmo se gostasse, jamais pediria uma num bar como aquele. A Ai, que delícia, quando voltava pra mesa dela e pro Igreja, parou na frente da minha mesa. Babalu era Danielle Winits, caralho. Pode crer, eu disse. E ela foi embora. Eu sabia que não era a Deborah Secco, eu disse. Olha aquele cara, é o Igreja. Vai dizer que tu não entende por que o apelido dele é Igreja? Ela olhou e riu e perguntou como eu conhecia essas pessoas. Quer dizer, eu sei que você conheceu elas agora, mas por quê? Ela já tava bêbada, claro, ninguém aguenta duas horas numa mesa onde tão discutindo se foi golpe ou não sem estar pelo menos bêbado. E não só eles, ela seguiu, por que a gente se conhece, tipo, do nada? Não sei, eu disse, pensando que tudo faz parte de um certo movimento de astros ou do grande plano de Deus, ou melhor, de um grande plano da Justiça – provavelmente é a Justiça o enorme Deus relapso a quem todos recorrem. Fico pensando nos dois senhores, eles já foram embora, cada um pro seu lado. Fico pensando que a conversa toda foi causada por conta daquela luva de dedos cortados. Ele parecia um velho rock’n roll, mesmo sendo um velho normal, com aquela luva de dedos cortados. Mas ele era só um velho romântico. O garçom esqueceu da caipirinha. E ela provavelmente esqueceu que tinha pedido. Não fiz questão nenhuma de lembrar isso a qualquer um dos dois.

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