Lido Motel

O único quarto disponível era a suíte asiática – venho mesmo me dedicando a ler todos Kawabatas. Seria engraçado se morrêssemos na suíte asiática? A perversão em seu ventre (não é japonesa, mas poderia). Seria engraçado se morrêssemos assassinados pelo casal do quarto ao lado? Isso não evitaria a inevitável conversa sobre eu só ter dinheiro pra suíte normal. Isso evitaria que fôssemos infelizes. Que voltássemos pra casa. Quando a gente morre encontra nossos cachorros mortos, eu disse. E nossos amantes mortos. Eles estão todos em paz no paraíso. Trabalhando com os mortos. Peraí, ela disse – só de calcinha, os peitos dançando uma canção asiática, um pouco, só um pouco menores e seriam asiáticos também -, eu tô postando algo no face pra despistar meu marido. Algo no face? É, uma piada sobre o Trump que pensei hoje. E então ela ri. Pode rir. Ria da vida enquanto eu penso nos amantes mortos (não os meus mas os do mundo, todos no paraíso, trabalhando felizes com os mortos e seus cachorros mortos) até que ela atire o celular na mochila e a gente se encontre como fantasmas insaciáveis por desespero (a infidelidade é a profissão mais antiga do mundo). Quando criança assisti essa série sobre o holocausto em que o exército americano salvou um grupo de judeus em privação e eles se atiraram sobre um caminhão de comida e alguém teve de implorar pra que tivessem calma e comessem aquilo devagar e aos poucos senão morreriam e mesmo assim alguns continuaram a devorar os pães que viam pela frente e depois de quatro camisinhas ela diz pra eu falar o nome de uma banda. Steely Dan, eu digo e ela procura no YouTube e compartilha no face e ri novamente e deixa a música rolando enquanto eu penso em Primo Levi e na vez que meu amigo Gustavo Schwetz, na primeira semana de faculdade, duvidou que soubéssemos soletrar o seu nome e só eu acertei. Ela o tem no facebook porque viemos da mesma cidade e frequentamos lugares iguais e agora estamos aqui na suíte asiática do Motel Lido numa das maiores cidades do mundo – que nem nos parece grande coisa assim. Ela pede um Uber e eu volto a pé pra casa e penso que seria engraçado morrer atropelado. Me jogar na frente do primeiro carro bêbado que fizesse o melhor do sertanejo universitário chegar aos meus ouvidos. Seria engraçado eu morrer assoviando um tango de Paco Varela a caminho de casa? Porque a vida pode ser séria. Minha amante viva. Meu cachorro vivo e suas alegorias. Pulando em mim logo que eu girar a chave, lambendo minha boca e abanando seu rabo e caindo sentado em meu colo assim que eu me atirar no sofá.

 

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Uma resposta to “Lido Motel”

  1. Gustavo Schwetz Says:

    Sonho realizado. Meu nome sendo citado em um dos teus contos. Seguimos juntos, Bandido, atual amigo, futuro capanga.

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