Morte Entre Amigos ainda em cartaz

Semana passada, o Peterson Queiroz foi assistir e escreveu sobre:

SOBRE ‘MORTE ENTRE AMIGOS’

Fui ver ontem “Morte Entre Amigos”, nova peça com direção de Mário Bortolotto para 4 autores que, cada um a seu modo, abordam a finitude. Me arriscaria a dizer que a relação tempo/distância é o que define a morte. Pois há aqui um belo ensaio cênico composto justamente nestas bases, seja por meio da ressonância causada pelos espaços entre os precisos focos de luz que o Marião trabalha tão bem (e pelo trânsito sutil de cada um vagando em cena de um porto ao outro) ou pela também sempre muito sacada escolha das músicas, sobretudo as que embalam as cenas como trilha incidental por sobre os diálogos/hiatos entre todos estes personagens/almas penadas suspensas nesta penumbra toda que é a vida.

Em “Não dá pra ver a lua da Augusta”, da Carol Teixeira, Carca Rah empresta sua verve desencantada pra um reencontro com uma escritora, Débora Estter muito bem também, em meio a ressonâncias do consumo pop/cult fossilizado pelo rock e pelo jazz e ao eterno desencontro. E é isso: 2 anjos caídos sobre a noite paulista, na sarjeta dos pensamentos, sem nada adiante que possa valer a pena. Nem uma dança. Nem mesmo uma chegada mais forte e que nem por isso diminui o abismo como um buraco inesperado no asfalto engolindo carros e consciências distraídas em suas bolhas particulares. Nem mesmo a lua parece poder abençoá-los.

Na sequência, Fernanda Gonçalves (muito precisa em sua composição e filha do lendário Ênio Gonçalves, um dos maiores atores que já tivemos) divide a cena com Guilherme Lorandi, além do óbvio encaixe da escolha pelo seu visual heavy metal, um ator de espontaneidade e comicidade fáceis: “Cocainômano”, de Edivaldo Ferreira, joga ambos na composição de um tipo estranho de ode a Lynyrd Skynyrd. E é justamente o descompromisso, algo difícil de se atingir numa dramaturgia sem que a coisa fique meio capenga (o que não é o caso aqui, claro), é que dá a medida exata dessa coisa que sempre se interpõe entre o real e a expectativa com a qual sempre se projeta algo no outro. Novamente então, como na morte, a distância. Não tão grande aqui, mas sempre presente. Na oposição/junção desse que a gente nunca consegue dizer facilmente tratar-se de um casal tanto quanto não dá pra dizer que não sejam um. E um tempo sempre dilatado demais.

“Kenny G”, do gênio Lucas Mayor, não poderia encontrar intérprete melhor que o diretor/ator Mário Bortolotto. É raro ver um texto onde a revolta e a inadequação social tornem-se tão desconcertantes que só nos resta rir. É impressionante como em um monólogo patético sobre uma dondoca de classe média alta e sua peculiar relação com o animal de estimação possa alcançar toda a dimensão da tragédia humana e ainda ser um compêndio/petardo crítico à indústria cultural e ao consumo massificado de subprodutos. Como se, nisso, fosse possível tirar da prateleira sua identidade como uma pessoa ‘sofisticada’ e/ou ‘única’, lotando vernissages e cursinhos de História da Arte sem entender nada sobre o que realmente trata a real questão por trás de tudo: novamente a distância, agora entre a aparência e a essência, da arte e da própria vida. E ainda consigo me impressionar com a energia e as sutilezas com as quais o ator consegue fazer com que a gente se deixe levar, no melhor estilo Louis CK, pelos vastos caminhos que o texto magistral do Lucas nos conduz – então não vou resistir a um trocadilho muito infame: aqui, literalmente ‘o buraco é mais embaixo’ (quem for ver, vai entender).

Por fim, o magistral texto de Bruno ‘Bandido’ Goularte que dá título à peça. Em “Morte entre amigos”, a síntese de todo este ensaio. Frases certeiras. Figuras arquetípicas como todo grande autor busca almejar pros seus personagens. Quando surgem, são como fotografias still que escorressem diante dos nossos olhos. Como lágrimas demorando pra cair ou mesmo teimando em se esconder diante do outro. Marcando a distância. E o tempo. Como a luz que não é salvadora. Como não conseguir se esconder por tanto tempo assim nas sombras/sobras entre eles e entre tudo. Como amigos que também nem perceberam o fim dessa ideia de fraternidade entre eles até ali. Como interstícios entre os suspiros na morbidez frívola e civilizada da espera cerimonial pelo rito de encerramento de outro amigo. Na ausência nem tão repentina assim dele. E de nós mesmos diante dessa escultura do tempo – não por acaso vislumbrei como personagens de Jim Jarmusch poderiam flanar em um filme de Tarkovski, ainda que eu saiba que os autores elegeram Cassavettes como referência, o que também se aplica, claro. De todo modo, Gabriel Oliveira surge como um ator de cuja densidade parece escapar todo o timming letárgico necessário para a contemplação de sonho que a cena pede. Mas com contundência. E uma força interna. Silenciosa. Perturbadora. Tenho falado muito sobre essa idiotice de privilegiar o ritmo. A cena me mostrou que continua valendo a pena não ter pressa. Sobretudo pra apreciar a beleza. Renata Becker é o próprio desalento. Ela simplesmente parece afundar com tudo ali. Como o epicentro nervoso de um terremoto que nunca se acalma, abalando tudo em volta, de dentro pra fora. Único facho de luz possível sobre o futuro, mas um facho pálido. Embaçado. E Marcelo Selingardi atingiu uma espécie de ingenuidade e inocência quase que sagrados. Navegando de um lado pro outro ali também, com um tipo de esperança estúpido qualquer. Nessa cena, pra mim, se consolidou este ensaio sobre a morte. Tempo/Espaço por sobre os quais vamos nos destilando a cada gota. Obrigado aos atores, autores e ao diretor.

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