Enterro dos Lobos

O Peterson Queiroz, foi assistir a nossa peça, que está em cartaz no Cemitério de Automóveis, e escreveu sobre ela. Abaixo:

 

SOBRE “ENTERRO DOS LOBOS”

Thomas Hobbes popularizou a frase do dramaturgo romano Platus que diz que “o homem é o lobo do homem”. Mas tudo o que Jara (Bruno Goularte), filho pródigo de Claudio (Walter Figueiredo) e Cristina (Ângela Figueiredo), vê quando chega de volta pra encontrá-los juntos de sua irmã Ionara (Debora Sttér) são apenas almas vira-latas cercadas pelas grades de seu próprio patrimônio. Os nomes dele e de sua irmã saíram de um livro de nomes indígenas do qual o pai, espécie de ex-selvagem, não se lembra de como lhe veio parar nas mãos. A mãe não faz outra coisa senão lamber suas crias e tentar manter o equilíbrio delicado daquela matilha efêmera, uma vez que Jara, num primeiro instante, parece ressurgir apenas para evocar ressonâncias perdidas como ganidos distantes demais para serem ouvidos. E para atiçar também a selvageria de velhos fantasmas e conflitos mal resolvidos. Estes sempre delicadamente varridos para debaixo do tapete pela mãe e pela irmã, zelosas que são daquele sistema clássico em torno de seus referenciais masculinos principais, embora isso soe como algo tardio mesmo ali, nessa carcomida estrutura patriarcal por sobre as tábuas rangendo em noites gélidas como se fossem passos – não de fantasmas, mas, sim, do próprio tempo.

Pouco importa a preocupação de mãe com o descaminho de Jara ou as desventuras amorosas igualmente desesperadas da irmã ou o peso literal de um deus-pai-todo-poderoso cujas leis parecem emanar, o tempo todo, de um simples olhar implacável para o filho com “vocação pra suicídio”. O que realmente parece ir minando a força vital de cada um destes animais agora domesticados é mesmo o tempo. Presente ali em livros velhos cheios de renovados signos ou em quadros ‘kitsch’ esquecidos nas paredes. Ou nas lembranças sempre tão escorregadias que nunca são concluídas a tempo, levadas que são pela correnteza dos acontecimentos carregados de urgência em torno da volta do filho, ainda que em letárgico e pesado desenrolar – num efeito proporcionado quer seja pelo descompromisso da narrativa proposta pela dramaturgia densa e repleta de sutilezas do autor/ator Bruno Goularte (o filho que é “quem entende dessas coisas”) ou pela direção concisa e detalhista com a qual Ademir Muniz encontrou a forma ideal de preservar esta fluência algo modorrenta e típica das manhãs geladas do sul, de onde Bruno parece nutrir-se de senso e de sensibilidade em cada palavra/situação/personagem a cada obra que vou conhecendo deste escriba tão desconcertante e cheio de brilhantismo.

Os desempenhos do quarteto de cordas: o pai nos gravões de uma construção obsessiva e vigorosa do ator compondo a medida exata entre o brutal e a alma em frangalhos, a mãe nas semitonais carregadas de doçura e singeleza feito torrentes de um amor que é tão puro e profuso que sempre se apresenta deslocado naquele quadro de desalento consumido e consumado, a irmã jogando um ou outro sustenido entre acordes dissonantes na sua busca por um sentido sempre tão perdido de entendimento dos homens e, enfim, Jara em solos implacáveis de agudos surdos dentro de si como uivos que teimam em chamá-lo de volta pra floresta o tempo todo. Tudo pontuado por baladas do cone sul e ecos de Procol Harum, pra descambar num tipo muito específico de nostalgia-do-que-parece-nunca-ter-sido. E assim foi: o bom filho a casa torna. Mas nem todos os lobos aceitam ser enterrados. Ainda bem.

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